Para minha irmã Analdina
Dina pegou o porco pelas patas traseiras. Enfiando o corpo todo dentro de uma
pequena moita, descuidado, o porco não percebeu que sua parte traseira estava
descoberta. Dina não pensou duas vezes. Pegou as patas traseiras e puxou o
animal que, assustado, começou a grunhir desesperadamente como se estivesse
indo para o abate.
- É meu. Eu peguei
tio. Ele é meu, não é tio?
Nos seus dez anos e
meio, com o vestido todo encardido de lama, mal podendo segurar o porco, correu
para o tio perguntando.
- É meu não é tio? O senhor prometeu.
- É seu sim. O que
prometo cumpro.
E lá foi ela toda
contente por ter pegado o porco entre doze meninos e só ela de menina. Os
meninos de sete a doze anos, cabisbaixos ouviam as brincadeiras dos adultos.
- Vocês são moles
mesmo.
- Deixaram a menina
pegar o anima!
- Pirralhos isso é
que são.
Os meninos nada
diziam. Não tinha nada o que dizer. Só ouviam envergonhados.
Como sempre acontecia, era mais um domingo que os parentes se reuniam na
fazenda, cujos porcos de engorda tio Bertinho matava para vender. Chegavam às
seis horas da manhã, às vezes ainda a cerração estava baixando e, ficavam até
as dezoitos horas.
E naquele domingo, onde foram mortos três porcos, e deles foram feitos
bistecas, torresmo, linguiça, chouriço, que seriam vendidos na cidade, o tio
Bertinho, um pouco antes de ir embora, quando as coisas estavam no caminhão e,
as mulheres faziam a última limpeza do local, o tio Bertinho, disse para a meninada:
- Vou soltar um
porco e aquele que pegar pode ficar com ele.
A molecada toda se
alvoroçou em volta do tio.
- Só as crianças, os
cavalões não valem.
Dizendo isso,
separou as crianças por ordem de idade, e mandou que soltassem o porco. Assim
que o pequeno suíno se viu solto, saiu em disparada, seguido pelas crianças correndo
atrás dele. Foi um corre e corre gritaria de: é meu, é meu, o pobre do bicho
tentando fugir das garras dos pequenos, procurava os esconderijos mais
inusitados que encontrava. Houve um momento, sem que esperassem, passou entre
as pernas das mulheres ocasionando gritos e risadas. Até que, já cansado, e
talvez se imaginando salvo, se enfiou na moita, onde a pequena menina o
encontrou. Dina estava enlameada, suja de barro, roupa rasgada, cansada, mas
satisfeita.
O tio propusera que deixasse o porco na fazenda que, no dia seguinte, pediria
para um empregado levá-lo na casa dela, o que foi rejeitado pela menina. Ela
tinha e queria levar o porco no mesmo dia. E dito e feito. Lá foi ela abraçada
ao porco, sentada na carroceria do pequeno caminhão apelidado de Mazzaropi.
O tio lhe dissera:
- Não dê comida para
ele, só milho e cana picada e ração.
O porco, filhote já
bem grande, deve ter estranhado a nova residência. Sairá de um lugar espaçoso,
mesmo que fechado, para um lugar pequeno, a princípio se encorujou debaixo do
tanque por vários dias. Dez dias depois, o bicho parece que se acostumou com o
novo lugar, se desencorujou e saia pelo quintal todo já ambientado com o novo
lar. Mas um dia, por descuido não se sabe de quem, se dos pais ou da menina, o
porco comeu comida gordurosa que, talvez devido sua procedência de porco, fuçou
o lixo lá encontrando o que não devia comer. Ficou doente vindo a falecer dias
depois. Dina como toda criança que se apega a algo, chorou a morte do suíno, o
que foi logo esquecida com a vinda de uma gata siamesa.
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