segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 327

 Para minha irmã Analdina


Dina pegou o porco pelas patas traseiras. Enfiando o corpo todo dentro de uma pequena moita, descuidado, o porco não percebeu que sua parte traseira estava descoberta. Dina não pensou duas vezes. Pegou as patas traseiras e puxou o animal que, assustado, começou a grunhir desesperadamente como se estivesse indo para o abate.

- É meu. Eu peguei tio. Ele é meu, não é tio?

Nos seus dez anos e meio, com o vestido todo encardido de lama, mal podendo segurar o porco, correu para o tio perguntando.
- É meu não é tio? O senhor prometeu.

- É seu sim. O que prometo cumpro.

E lá foi ela toda contente por ter pegado o porco entre doze meninos e só ela de menina. Os meninos de sete a doze anos, cabisbaixos ouviam as brincadeiras dos adultos.

- Vocês são moles mesmo.

- Deixaram a menina pegar o anima!

- Pirralhos isso é que são.

Os meninos nada diziam. Não tinha nada o que dizer. Só ouviam envergonhados.
Como sempre acontecia, era mais um domingo que os parentes se reuniam na fazenda, cujos porcos de engorda tio Bertinho matava para vender. Chegavam às seis horas da manhã, às vezes ainda a cerração estava baixando e, ficavam até as dezoitos horas.  
E naquele domingo, onde foram mortos três porcos, e deles foram feitos bistecas, torresmo, linguiça, chouriço, que seriam vendidos na cidade, o tio Bertinho, um pouco antes de ir embora, quando as coisas estavam no caminhão e, as mulheres faziam a última limpeza do local, o tio Bertinho, disse para a meninada:

- Vou soltar um porco e aquele que pegar pode ficar com ele.

A molecada toda se alvoroçou em volta do tio.

- Só as crianças, os cavalões não valem.

Dizendo isso, separou as crianças por ordem de idade, e mandou que soltassem o porco. Assim que o pequeno suíno se viu solto, saiu em disparada, seguido pelas crianças correndo atrás dele. Foi um corre e corre gritaria de: é meu, é meu, o pobre do bicho tentando fugir das garras dos pequenos, procurava os esconderijos mais inusitados que encontrava. Houve um momento, sem que esperassem, passou entre as pernas das mulheres ocasionando gritos e risadas. Até que, já cansado, e talvez se imaginando salvo, se enfiou na moita, onde a pequena menina o encontrou. Dina estava enlameada, suja de barro, roupa rasgada, cansada, mas satisfeita.
O tio propusera que deixasse o porco na fazenda que, no dia seguinte, pediria para um empregado levá-lo na casa dela, o que foi rejeitado pela menina. Ela tinha e queria levar o porco no mesmo dia. E dito e feito. Lá foi ela abraçada ao porco, sentada na carroceria do pequeno caminhão apelidado de Mazzaropi.
O tio lhe dissera:

- Não dê comida para ele, só milho e cana picada e ração.

O porco, filhote já bem grande, deve ter estranhado a nova residência. Sairá de um lugar espaçoso, mesmo que fechado, para um lugar pequeno, a princípio se encorujou debaixo do tanque por vários dias. Dez dias depois, o bicho parece que se acostumou com o novo lugar, se desencorujou e saia pelo quintal todo já ambientado com o novo lar. Mas um dia, por descuido não se sabe de quem, se dos pais ou da menina, o porco comeu comida gordurosa que, talvez devido sua procedência de porco, fuçou o lixo lá encontrando o que não devia comer. Ficou doente vindo a falecer dias depois. Dina como toda criança que se apega a algo, chorou a morte do suíno, o que foi logo esquecida com a vinda de uma gata siamesa.

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