quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Pequenas histórias 299

 Enquanto os rojões


Enquanto os rojões explodiam alegria nas garrafas de champanhe ao borbulhar dos abraços de feliz natal, retraído na ponta da mesa, ele bebericava o chope calmamente. Enquanto risos escorriam sabores arrumados cuidadosamente sobre a rica toalha enfeitada, ele observava o movimento do pessoal. “Se trinta anos atrás, seguisse minha vontade e, não a vontade alheia, como teria sido a minha vida?” Como poderia saber? No intimo não havia espaço para arrependimento, sempre soubera disso. Não se arrependia de nada, talvez o que pudesse lhe dar uma sensação de arrependimento seria por algo que ainda não fez. O sono deixava seus olhos pesados. Procurou disfarçar num bocejo percorrendo um a um as pessoas ali reunidas. “Será que eles estavam ou tinham feito tudo a sua maneira, isto é, como queriam fazer? Será que alguém ali se submeteu a vontade alheia?” Perguntas sem repostas, disse para sim mesmo.

Não era expansivo. Preferia ficar no seu canto a percorrer a mesa cumprimentando um a um. Transformar o pensamento em ação inibia seus músculos, os braços ficavam pesados, o movimento do sangue nas veias congelava, tornava-se pedra, todo o corpo tornava-se uma pedra impedindo-o.

A conclusão que tinham passado a ele era de que tinha um destino predestinado. Tinha uma função, um compromisso a cumprir. Seu destino estava predestinado. Mas a que? Tivera sempre a impressão que algo importante, talvez até extraordinário fosse acontecer, quer dizer, talvez não acontecer com ele, ou quem sabe, viesse a fazer parte desse acontecimento. Desde pequeno tivera essa impressão. E, no entanto, estava ali, bebericando o seu chope numa noite chuvosa de Natal vendo a alegria do pessoal.
Estavam ali, sobrinhos, sobrinhos netos, primos, filhos dos primos, namorados e namoradas dos primos, conhecidos, os únicos ausentes eram os tios. Lembrava quase em detalhes o noivado de cada um dos primos e sobrinhos. Quase em detalhes vinha em sua mente o casamento de cada um. Saudosista, pensou. Não era saudosismo, era uma sensação que não definia os sentimentos. A chave estava aí, ele não sabia e nunca soube definir os seus sentimentos, saber o que estava sentindo, tanto agora como outrora. Nunca soube se amava, se gostava, se o que sentia enquanto bebericava o chope seria um vazio ou sentimento de pena de si mesmo. Eis a questão apocalíptica, disse tristemente.  
No telão colocado no canto apertado do galpão minúsculo, a cantora morena de pernas grossas pulava suas carnes que chacoalhava ao ritmo da música irritante. Nisso a imagem foi se dissolvendo, a música aos poucos se dissipou, e o que apareceu, foi um rapaz magro, cabeludo, calça jeans, batendo palmas num portão baixo numa casa quase de esquina. Esperou uns minutos, dali a pouco surgiu uma senhora de cabelos pretos, baixa, meio robusta.
- Bom dia.

- Bom dia.

- O caso é o seguinte. Queria saber a opinião da senhora.

- Qual opinião, pode dizer.

- Bom, estou com a intenção de comprar o anel de noivado e convidar sua filha para almoçar ou jantar num restaurante e durante o jantar ou almoço dar para ela a aliança. O que a senhora acha?
- Não, não faça isso. Ela não vai gostar, ela não gosta de surpresa. E depois como vou ficar diante dos parentes. Aqui em casa sempre foi diferente. É preciso avisar os tios, as tias, convidar todos, aí sim você da à aliança.

- A senhor quer dizer, dar uma festa burguesamente, tudo dentro dos conformes, é isso?

- Não sei o que é burguesamente, mas como sempre foi feito na nossa família.

- Ok, está certo então.

 - Acho melhor.

Nisso sentiu um dedo cutucar seu ombro.

- Vamos, pai.

- Vamos.

- O que foi?

- Nada.

- Está como uma cara de quem comeu e não gostou.

- Não é nada não. Deixe ver a aliança. Bonita. Gostou?

- Sim, gostei.

- Está contente?

- Claro.

- Jóia.

- Vamos embora?

- Vamos.

Seguindo a filha, olhou para o telão. Lá estava novamente a cantora de coxas grossas pulando suas carnes ao ritmo da música irritante.

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