Esse negócio de exclusividade é merda, disse ele. Não gostava dessa palavra.
Não era exclusividade de ninguém e ninguém era para ele exclusividade. Que
porra é essa afinal? Por que ela proferiu tal atrocidade num antro de mofinos
preocupados com eles próprios em suas vidas mofentas de inúteis. Só porque foi
para cama com ela, tem ela o direito de se achar exclusiva, é? Não tem claro
que não têm. Se ela se acha o problema é dela, disse para si mesmo.
O culpado dessa porcaria toda fora o André, aquele filho da puta. Ele que
engendrou toda a artimanha em que colocou Rildo contra a parede. Chegou a se
atracar com ele por causa disso. Ficaram dias e dias sem se falarem. No fundo
Rildo até que achou o troço legal, quer dizer, talvez ele tenha saído com saldo
positivo. É claro, sentiu-se, e sabe que foi enganado, e isso o deixava
constrangido misturado com ódio, até pensou em vingança. Passadas as águas
turbulentas, riu de tudo e, chegou à conclusão que a menina, a Leda, até que
era gostosa e bonita. Não tinha uma conversa decente, uma conversa inteligente,
somando tudo corpo, peitos, bunda, olhos, sexo, boca, ah! A boca, que coisa
exuberante. Dava nota sete para ela.
Como sempre, foram
para a balada de todos os santos sábados, numa casa noturna recentemente
inaugurada. Já estavam bebendo do mesmo copo umas duas horas, principalmente as
meninas com suas caipirinhas de saquê e morango. Os homens não eram de ficar
com o mesmo copo por duas horas, portanto tinham bebido uns cincos copos de
chope acompanhado de uísque que passava de mão em mão. Foi então que o
André se aproximou dele e disse apontando para uma moça loira encostada no pilar
três mesas depois deles.
- Está vendo aquela
moça?
Claro que ele estava
vendo aquela moça? E o que é que tem aquela moça? Pensou em dizer, mas ficou a
espera. Apenas acenou com a cabeça que sim. A música alta não deixava ouvir com
nitidez o que se dizia.
- Ela está
interessada em você, gritou André.
- É. Em mim!
- É em você.
- E por que eu?
- Ora, como posso
saber. Vai lá falar com ela.
- Não é preciso, ela
veem em minha direção.
- Oi!
- Oi!
- E aí garotão, ta
afim?
- Sim... Bem...
Claro.
- Vamos dançar?
- Vamos.
Pegando na mão dela,
Rildo a levou ao meio da pista. Dançaram duas, três, quatro, cinco músicas. E
aí, ela disse para ele, gritando em seu ouvido esquerdo:
- Vamos sair daqui?
- Vamos.
Puxando-a pela mão
direita, saíram da boate. O ar fresco da madrugada bateu em seu rosto quente.
- Aonde vamos meu
garotão?
- Escute aqui, ó
mina. Não sou seu garotão, tenho nome, Rildo prazer.
- Desculpe. Prazer, Leda. Mas aonde vamos?
- Não sei o que
sugere?
- Não sugiro nada,
você é quem manda, é o dono da noite, isto é, da madrugada.
- Para começar
sugiro é nome de japonês.
- Engraçadinho, já
te disseram isso?
- Já. Vamos pro
motel?
- Uá, o moço está
nos trinques mesmo. Claro, vamos logo então.
O sol beijava
as coxas dos lençóis amarfanhados quando Leda lhe disse:
- Você é um cara legal, gostoso, bonito, tesudo, que sabe como deixar uma
mulher satisfeita, está cobrando pouco.
- O que? Cobrando?
- É. Cobrando.
- Como assim?
- Ora, paguei ao seu
amigo dez reais para transar com você.
- O que?
- Que cara de
espanto é essa? Você não é michê?
- Não, não sou. Vou
quebrar a cara daquele filho da puta, ah se vou.
- Bom, se não é tem cara e espero usufruir novamente...
E assim se separaram.
Rildo passou dias sem ver André. Desconfiou e, estava certo, o amigo procurava
não se encontrar com ele. Esperava uma oportunidade em que Rildo estivesse com
a cabeça mais fria, não estivesse com tanta raiva dele. O que não adiantou
nada. Ao se encontrarem, Rildo pulou no pescoço de André de tal maneira que foi
preciso cinco para separar os dois.
O saldo da contenda foi que André saiu com um olho roxo e Rildo com um dente
quebrado que o deixou mais com cara de michê.
- Michê, isso o que você é, berrou André.
- Michê, vá à merda,
respondeu Rildo
Em seguida caíram na
gargalhada. Hoje a amizade dos dois se fortaleceu mais ainda e Rildo deixou de
ser Rildo, passou a ser Michê como todos o chamam.
E Leda? Bem, Leda depois de dizer aquela idiotice de exclusividade, passou a fazer parte do grupo depois de conhecer um a um dos rapazes na intimidade.
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