quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 9

 Segunda feira iluminada

 
Segunda feira iluminada no embalo do feriado de sexta-feira. Sorrisos se abrem na oportunidade de passar três dias sem fazer nada, isto é, sem ter que levantar-se cedo, pegar condução e se aprisionar na obrigação de sobreviver. Grande porcaria. Pensamento retrógrado deveria causar encefaléia. Viver em duplicidade, se é que posso chamar dessa maneira, é perigoso.
- Puta merda, estou atrasado. Tenho que entregar esse apontamento hoje para o chefe. Ah! Mas que vá a merda, sexta está aí, feriado, vou pegar uma praia com a mina e nem quero pensar em serviço. O chefe está me chamando.
E o funcionário exemplar, com presteza, vai atender as obrigações com a promessa sexual do feriadão entre as pernas presas pela cueca Calvin Klein. E no centésimo quinquagésimo segundo andar ouve o chefe discorrer sobre o trabalho, enquanto seus olhos famintos de liberdade descortinam por trás do chefe, o azul enfeitado pelo sol banhando os prédios, aumentando a ansiedade do feriadão.
- Ouviu o que eu disse? – pergunta o chefe vendo o olhar distanciado do funcionário.
- Ouvi, sim, chefe. Pode ficar sossegado, quinta antes do expediente estará na sua mesa, pode contar.
- Quero ver mesmo. Pois não quero trabalhar no feriado.
- No feriado, chefe! Trabalhar na sexta é ruim, hein chefe.
- Então trate de fazer logo o serviço.
Saí da sala do chefe com mais uma preocupação: corre o risco de trabalhar no feriado. Mas como bom funcionário vai desempenhar o papel com dignidade para entregar em tempo o serviço. Senta-se a sua mesa. Começa a sentir uma dor finíssima lá no fundo do estômago. Olha o calendário onde está preso o retrato da namorada. Ainda faltam três dias... Caramba! A dor aumenta. Deve ser fome, pensa comer uma bolacha e um chazinho. E assim, pela não sei quantas vezes, toma seu chazinho com bolacha para sanar a dor de estômago. Assim ele passa a segunda feira vivendo antecipadamente ao invés de se concentrar em um problema de cada vez.
E sem perceber, está cultivando uma úlcera como brinde por sua ansiedade.

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