Neste dia três de junho, terça-feira, o céu tinge-se de um amarelo
avermelhado prenunciando sol. No quadrilátero da janela do ônibus, a manhã se
descortina na limpidez das nuvens deslizando ao sabor do vento. Vento carregado
de friagem levando para dentro dos ossos o enrijecimento dos nervos numa
sofrível tentativa de proteção para não sentir frio.
O ônibus vira para a esquerda e entra na Radial
Leste. Cai na correnteza metálica dos aflitos cansados que se imaginam voltando
para a casa no fim do dia. Em linha reta, o motorista conduz o ônibus com a
responsabilidade de não se atrasar. Os passageiros se entregam ao sono
confiante na sua mão que, hábil, desvia das corredeiras indo para águas não
turbulentas. Mostrando profissionalismo, confiantes, os passageiros se entregam
ao sono profundo. Alguns ressonam expressando em sons inaudíveis dominados pelo
profundo sono. De outros nada se ouve. Fora os que se cobrem com cobertores, máscaras
para sono ou travesseiro para a cabeça repousar no confortável.
Mãos esgarçam o espaço esticando os nervos
adormecidos pela posição mantida por algum tempo. Momentaneamente o pensamento
desliza em vários pontos procurando apoio no dissipar a longa viagem. Por uma
hora mais ou menos, o corpo entregue ao balanço do veículo, dispersa os
sentimentos no sono dolente ou na leitura rasante de algum livro.
Pela janela suja com manchas oleosas, talvez alguma
cabeça pesada de sono tenha encostado seus cabelos cansados, vejo o populacho
tentando alcançar o destino de cada um. Plena sete horas da manhã, há avalanche
de passos que se dirigem aos desconhecidos, alguns com o caminho já traçado,
percorrem os limites de sua aflição no corre-corre.
Volto os olhos para as letras do livro. O tédio da
leitura me proíbe de avançar duas ou três, forçando, quatro páginas, assim
sendo, fecho definitivamente o maçante romance.
Ajeito-me numa posição que acho confortável, solto os
ossos enrijecidos de frio, deixo livre os músculos que se apoiam na carne
entregue a dolência, procuro num relaxar sentir o peso, o cansaço de todo o
corpo, entregando-me ao pulsar das veias jorrando o sangue ao coração. Fecho os
olhos, imagino-me num barco frágil descendo a corredeira de sangue, chego até
sentir nos lábios o gosto amargo agridoce dos glóbulos na língua empurrando
garganta abaixo.
Nisso, ao virar uma veia, deparo com um obstáculo.
O barco bate na saliência gordurosa, racha-se ao meio, sou jogado para o alto,
logo em seguida despenco vertiginosamente na corredeira vermelha.
Sinto-me perdido, começo afogar, engolindo sangue, a garganta repele a
matéria viscosa e, de supetão acordo. Chego ao meu destino. Desço do ônibus e
caminho devagar no tempo que ainda me resta.
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