Transpira o meio dia na pausa do almoço. Corre-se no tempo que não espera
retardatários esquecidos do papel que representam. Transpiram-se as
preocupações, onde os passos nas calçadas íngremes revelam-se numa sociedade
burocrática que, implantada conscientemente em cada indivíduo, torná-lo-á em
zumbi controlado.
Deslizo nas palavras contornando as asperezas afiadas mais que navalha de
barbeiro. Revelo nas reentrâncias a agudeza de senti-las na totalidade de ser
somente o que são: palavras.
Dentro da vida os gestos se materializam na proporção dos sentimentos emitidos
ou revelados no grupo a que se pertence. Marginalizado grita a voz ausente do
amor escondido nos cantos da cidade. Vou ao encontro do nada a procura de você
e vejo o corpo da indiferença na sarjeta mendigando caricias a peso de ouro.
Esfolo a carne nas pedras da alma endurecida pela ganância de se querer cada
vez mais. Ridículo o que eu disse? Até pode ser, mas o caso é que se precisa de
muita coisa e nada se recebe.
Precisa-se de alimento para fomentar o medo de viver. Precisa-se da vida para
que tenhamos nossa companheira à morte nos seguindo a espera do seu momento.
Precisa-se do amor fundindo carnes para saciar a alma de culpa e pecado.
Precisa-se da criança para que o futuro não seja interrompido na brutalidade da
vida. Precisa-se do indivíduo contra o indivíduo reclamando seu lugar na sociedade
de luxo e podridão. Precisa-se do homem com sua arrogância de macho para
perpetuar a espécie. Precisa-se da mulher para agasalhar a semente que a fará
complementar-se com a terra.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023
Pequenas histórias 150
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