segunda-feira, 13 de maio de 2024

Aquele sábado...

 

A mente é um caso incrível! Surpreendente. Apronta cada uma que é difícil de compreender. Digo o que sempre venho dizendo: deveria existir um botão, um sistema que pressionado desligasse a mente. Deixasse em branco, fizesse com que não conseguíssemos pensar. Impossível, não é? Creio que exercitando a mente talvez houvesse essa probabilidade. Acredito que a mente é uma fonte inesgotável de poder que a maioria ainda não percebeu. Só alguns com o quociente mais elevado sabem e usam o poder mental adequadamente. Muitos poucos. Os que sabem, infelizmente a usam para o mal.

Portanto naquele sábado, o sábado que me ocorreu o fato inusitado, que só eu percebi, e que comigo morreria, se não fosse abrir a boca, melhor dizendo, não fosse pressionar essas teclas mencionando o dito fato que há tempos formiga meus dedos para serem relatados, ninguém dele saberia. Mas vamos ao fato que é o que mais interessa.

Como todos os sábados aquele não era diferente. As oitos horas o rádio relógio me despertou com o irritante bip bip. Levantei-me e fui tomar um banho para tirar a inhaca da ressaca. Depois sentei em frente ao micro, havia e-mails para responder e escrever. Por uma razão qualquer que não sei o porquê, achei que estava atrasado, talvez meu olho sonolento viu dez horas e não oito horas ou, por um motivo inconsciente, ansiedade, não sei, julguei que chegaria atrasado ao almoço que marcara com o Savasini. Como não sei chegar atrasado, creio que tenha sido essa a causa da ansiedade. O doutor Dirceu, médico acupunturista que, alia a medicina tradicional com a alternativa, me disse uma vez:

- Chegue pelo menos uma vez atrasado aos encontros. Não se preocupe de chegar atrasado.

Até que ele tem razão. Por que devo chegar cedo? Pensei:

- Não vou mais me preocupar com isso, disse a meia voz para mim mesmo.
Ah! Qual o que. Há uma mola ou ordem, não sei dentro de mim que me impede tal ousadia, sou sempre o primeiro a chegar. Mesmo sabendo que o Savasini não é muito pontual, o que não quer dizer que seja ele desrespeitoso com os seus encontros e muito menos com os amigos vejo mais como uma característica involuntária o qual, ele não consegue ser pontual e, se um dia ele deixar de ser impontual, não será mais o Savasini que conhecemos. Mesmo assim não consigo chegar depois dele. Chego sempre antes.
E como todo sábado, desci no metrô Brigadeiro e fui para o Genova crente que encontraria o Savasini já almoçando. Ledo engano. Ele não tinha chegado ainda. Olhei no relógio, faltavam cinqüenta minutos para o início dos Rascunhos Poéticos. Pedi uma cerveja e uma porção, não sei se foi de calabresa ou de filé de frango. Comi meio que apressado, quase em cinco minutos devorei a porção e bebi a cerveja. O Tio, o garçom que está acostumado a me servir, surpreendeu-se com a minha rapidez:

- Poxa! Sobrinho, ele me chama de sobrinho, já vai! Que pressa é essa?
- Estou atrasado, disse a ele.

Entrei na Casa das Rosas quase correndo. Passei pela recepção, perguntei pelo Savasini, peguei a lista de chamadas e subi para a sala que me foi indicada. Pensei que fosse encontrar a sala cheia, com o pessoal dos Rascunhos e, qual não foi a minha surpresa ao encontrar o pessoal do curso anterior. Quando me viram, se desculparam por ainda estarem na sala. Pensei:
- Será que todo mundo, até o Savasini, combinaram de chegar atrasado?
Quando o pessoal do curso anterior saíram, arrumei a sala, coloquei as cadeiras em círculo, abri mais as janelas, apaguei o quadro branco, não é mais quadro negro, e sentei-me à espera. Esperei. Cruzei as pernas. Descruzei. Fui até a janela. Voltei. Sentei novamente. E nada do pessoal chegar.

- O que será que houve, pensei ao mesmo tempo em que olhei o relógio.
Meus olhos se estatelaram nos ponteiros do relógio. Um giro de cento e oitenta graus sacudiu minha cabeça. Sem conter soltei um:

- Puta que pariu meio alto.

Tornei a olhar o relógio. Certifiquei-me do erro. Eu estava adiantado mais de uma hora. Os Rascunhos começa sempre as quatorze horas e eram ainda meio dia e vinte minutos. Nossa! Estava demais adiantado. Como fui me enganar dessa maneira! E agora? Perguntei. Bom agora é descer e voltar para o Genova. Foi o que fiz. Desci as escadas torcendo para não encontrar nenhum conhecido senão, além de pagar o mico, teria que dar explicações. Passei correndo pela recepção, deixei a lista de chamadas.

- Por favor, guarde a lista que já venho.

A recepcionista não entendeu nada, ainda bem que ela estava atendendo uma moça que pedia informação.

- De volta sobrinho, perguntou o garçom quando entrei novamente no Genova.

Pedi outra cerveja. Caramba! Não me conformava com o engano. Ah! Cacete, ninguém precisa saber o que aconteceu, pensei. É, mas os dedos não resistiram e tiveram que mencionar o fato, o qual, agora fui obrigado a narrar.

Isso foi o que me aconteceu naquele sábado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...