seus dedos digitavam palavras cheias de algo que não compreendia. Os olhos na lentidão dos objetos que o observavam, seguia o curso dando lugar às letras. Uma vez ou outra, os olhos se desviavam e percorriam a estante onde o computador estava encravado e, como a pedir uma pequena inspiração, suas pupilas liam os títulos dos dvds colocados um ao lado do outro numa arrumação convenientemente horizontal. Esse passeio dos olhos demoravam poucos segundos, pois era preciso prestar atenção na tela do monitor e acompanhar as palavras surgidas por causa dos movimentos das mãos juntamente com os dedos, verificando se estava correspondendo com o que deveria escrever.
Na
verdade não sabia o que escrever e, no pouco já escrito, numa releitura ágil
não gostou muito. Verificou palavras repetidas, frases com pouca sedimentação
dando uma consistência frágil ao pensamento. Não pensou em refazer, ele não era
muito de reescrever, achava que o que escrevia estava bom, que não devia mexer
mais. Houve um tempo em que reescrevia várias vezes um trecho, ou uma mesma
frase, apenas para sentir a beleza surgir entre um pensamento ou uma idéia. No
mais das vezes, seguia o fluxo sem uma ordem, sem um esboço definido. Talvez,
precisasse criar um esboço, uma linha do que deveria ou queria escrever, e a
partir desse esboço trabalhar a ideia infinita vezes fossem necessárias. Não
sabia se era um bom exercício ou, se daria um bom resultado.
O
que sabia era que nesse momento, precisava parar um pouco.
Não
tinha muita certeza se devia ter parado, achou que fosse necessário parar,
portanto parou. Foi até cozinha tomar um bom copo de água, pegou de cima da
mesa enfeitada para o Natal, umas castanhas e, voltou para frente do micro
teclar os pensamentos que afloravam da mente insegura do que escrevia. Tinha
até o final do cds do Stratovarios para dar uma consistência agradável ao que
estava escrevendo. Uma das coisas que o importunava era achar o que escrever o
que colocar no papel branco da telinha do monitor. Às vezes nas primeiras
palavras já vinha o material completo e, quando percebia o texto já estava
pronto, com um conteúdo forte, bom, agradável de ler. E quando isso sucedia,
não recebia nenhum elogio quando postado nas listas de discussão as quais ele
pertencia. Ficava, evidente aborrecido, no entanto lhe disseram uma vez: “O que
importa é que você tenha escrito e, que você tenha realmente gostado. Se o
leram ou não, se gostaram ou não, isso pouco importa. O que você tem que fazer
é escrever todos os dias, mesmo que seja uma simples e banal frase”. Desde o
dia em que ouviu isso não deixou mais de escrever todos os dias. Seja feriado,
domingo, sábado o dia que fosse ele empunhava os dedos meios adormecidos pelo
tempo, pois o tempo corre e a gente não tem como acompanhar, quando sentimos,
nossos dedos já não é tão ágil como outrora. Mesmo assim, com pouca agilidade,
não deixava um dia de escrever. Até chegaram a fazer piada, persistente, não
deu a mínima para o que diziam. Queria escrever, se pudesse escrever de uma
maneira como sentia a música do Stratovarios, colocar no papel o sentimento da
música transpondo os poros suados, captar em cada gota de suor, a melodia, os
versos em inglês, a bateria, o violão, a guitarra, tudo num conjunto só e
roubar toda essa capacidade de se fazer música e, das mais belas por sinal, e
transpor para as palavras, fazer os acordes, a voz do cantor, o clima, colocar
em cada ponto de cada letra, o texto não transbordaria palavras poética e, sim,
transbordaria poéticas palavras cheias de músicas que, o leitor ao ler,
sentiria juntamente a música das palavras sem precisar lê-las. Isto é, ouvia a
música das palavras como as palavras da música. Acho que seria mais
interessante, ficaria mais leve a leitura, o leitor não se cansaria tanto,
teria mais prazer em ouvir música e ler um bom texto num conjunto só.
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