Nisso no meio da sonolência que invadia meus olhos já marejados de tanto bocejar, soou uma voz forte impondo seu domínio:
- O menino! Não quer sentar?
Só ouvi a voz que soava nas minhas costas sem que eu conseguisse ver o dono.
- Ó rapaz dê o lugar para o menino.
Virando um pouco o corpo, vi uma mão se estender para segurar a mão do menino que sentou no lugar que o rapaz desocupara.
Tudo bem! Deixando de lado o humanitarismo, mas essas pessoas que se dizem caridosas agindo dessa maneira em público, tornam-se arrogantes, preponderantes como se fossem os donos da verdade.
Há alguns que estando quase dois metros longe do deficiente ou de algum senhor de idade, se fazem de caridosos a ponto de interromper a seqüência natural das coisas interpondo-se na vida alheia. Tal atitude deixa constrangido quem está sentado dormitando na maior cara dura tanto quanto o deficiente ou o senhor de idade.
Presenciei uma vez uma cena surrealista digno de humor. Uma mulher vendo um senhor em pé, não se contentou, em quanto não fez o rapaz ou moça, não lembro, se levantar, e fazer o senhor que, veementemente não queria, pois desceria logo, não faz favor o senhor tem todo o direito, e olhava com cara de reprovação para o rapaz que indeciso não sabia se levantava ou continuava sentado. Tanto fez que o senhor acabou sentando o que agradeceu calorosamente ao rapaz. Chegando à estação seguinte o senhor se levantou e desceu do trem. Ainda da plataforma olhou para a senhora e sacudiu a cabeça como se dissesse:
- Está vendo sua intrusa, não disse que desceria logo.
Essas pessoas que se dizem em público, com tal atitude, caridosas, a posto que na rodinha de amigos tomando uma caipirinha e falando mal da bunda das mulheres num machismo exacerbado, digam arrogantes:
- Ah! eu falo mesmo, quando vejo injustiças desse tipo me intrometo mesmo – e para complementar coçam descaradamente o saco e dão uma cuspida de lado.
Creio que essas pessoas, principalmente os homens, falam baixinho em casa numa demonstração de quem canta mais alto é a galinha.
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