quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Quem sabe

  

Acordou apressado. Olhou o relógio que martelava o silencio com o seu bip-bip. Seis horas e quinze minutos. Estava dentro do horário. Mesmo assim, acelerou os movimentos. Trocou-se, se lavou, pegou as coisas e saiu. Já estava subindo o segundo lance de escadas quando enfiou a mão no bolso. Droga! Tinha esquecido a conta da Vivo no bolso. Colocara no bolso para não esquecer... Voltou e deixou a conta em cima do computador, se alguém não tirar ela dali... Saiu. Ao fechar o portão notou mais uma coisa. Estava levando a chave da esposa. Oh! Que merda! Tudo bem é sexta-feira, pensou. Abriu novamente o portão, desceu as escadas, abriu a porta e colocou a chave em cima do móvel da cozinha. Bem que ela merecia ficar presa mesmo, pensou enquanto aguardava o ônibus. A vida tinha que ser mesmo assim? Será que tudo o que fazemos tem alguma razão? Talvez, por que... Ah! Ele lembrou que tinha eliminado do dicionário a palavra “porque”, agora precisa eliminar a palavra “Se”. Por sorte o metrô, apesar do aviso do alto falante: “Devido a chuva o metrô por motivos de segurança, está com a velocidade reduzida e com maior tempo de parada”. Assim que o metrô deu partida, a barriga começou com seus reverterios.  Mais essa ainda! Espero que dê tempo senão... Chegando no Paraíso, ao descer, com o seu corpo frágil e pequeno, foi empurrado de um lado para outro. Uma mulher baixinha olhou para ele e disse: O merda! Não empurre. Não deu pelota para ela, fez uma careta mostrando a língua, o que tinha era vontade de dar um safanão na cabeça dela isso sim. Saindo do metrô chovia uma chuva fina, e com isso os marreteiros vendendo guarda-chuva a cinco reais atravancava a saída. Teve vontade de comprar um... Rápido entrou no Banco, retirou seus mil reais para o fim de semana, atravessou a Augusta. Entrou na farmácia, comprou o que queria comprar, acelerou o passo, pois os reverterios da barriga aumentavam. Enquanto seguia em baixo da marquise do Conjunto Nacional, ficou imaginando como estaria o outro lado da rua com os camelôs. Ah! Que se danem eles...  Em passos lentos, pois não adiantava correr mesmo, como diriam: se correr na chuva você se molha mais, atravessou a rua e desceu a Frei Caneca. Como diz o ditado: chuva não mata, só dá pneumonia. Até que não seria mau, assim ficaria uns dias em casa. Estava suando, mesmo com a temperatura baixa. Entrou no prédio, pegou o elevador. Que coisa! Parece que a barriga sabe quando estamos chegando, ela fica mais impaciente. Entrou apressado, jogou as coisas em cima da mesa e entrou no banheiro. Ah! Que alívio! Ao ligar o micro ouviu alguém dize: hoje o seu bom dia será sobre a chuva, dando bronca, não é? Ele riu, esperou o Windows ser carregado, abriu o Word e se pôs a escrever freneticamente, sem se preocupar com isso ou com aquilo, se a vida era isso ou não, queria apenas e necessariamente escrever e, se possível sempre... Afinal a vida é tudo isso e muito mais, talvez até no fim do dia surja alguma surpresa... Um telefonema... Quem sabe...

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