quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Lane

  

Lane estava parada, meio que encostada na porta, confiante dentro do vestido preto. Trazia nos lábios um sorriso curto e nos gestos uma refinada lassidão ao comer em pequenas garfadas preguiçosas o bolo comprado na doceira. Demorava propositadamente cinco minutos mastigando cada pedaço que colocava na boca. Seu olhar penetrante se ampliava na vastidão do pensamento, atravessava o espaço sem atingir um alvo especifico. Nisso duas lágrimas escorreram, sem que músculo algum se alterasse em sua bela fisionomia, salgando o delicioso bolo.
 – Pouco me importo se ele vem ou não. -
pensou, consultando o relógio, presente de Sandoval.

Se não se importava porque continuava esperando? Alimentava alguma esperança? A razão gritava que não, o corpo implorava que sim. Enquanto não se decidia, a dúvida era adoçada, atenuada, assim como lentamente o pedaço de bolo sumia do prato. Certas mulheres quando angustiadas não comem nada, mas com Lane a coisa era diferente, tomada por uma compulsão incontrolável , comia um doce atrás do outro.  De vez em quando olhava para os lados na esperança que ele aparecesse. Ou caminhava pelo corredor do shooping lentamente, de uma porta a outra. Tentava se manter calma, contudo a pele tremia num regozijo de raiva, insultando-a vergonhosamente. Sempre calma, razoável, compreensível, e, no entanto, era tomada agora por um descontrole berrante.

Agia de uma maneira completamente diferente da Lane na noite de autografos. Apesar do momento que, para ela era grandioso, embora achasse não ser preciso todo aquele  aparato, sua calma foi gritante até para os amigos e parentes que, estranharam conhecendo-a como conheciam.  Com fama de tímida, que se envergonhava por qualquer coisa, Lane mostrou-se competente, segura de si, flanando  exuberante por entre os convidados.

— Lane leia para nós, por favor. - uma voz anônima se fez ouvir lá do fundo.

Sem pestanejar, abriu o livro e leu três poemas, fazendo sua voz soar como cristal por sobre as pessoas. Nesse exato momento viu Sandoval conversando com um desconhecido que não lembrava de haver  convidado. Não deu a mínima atenção, continuo a leitura com voz firme e segura. Ao terminar foi ovacionada calorosamente. Seu sorriso de felicidade partilhava com o noivo Sandoval, com os convidados e com as amigas. Nada mais lhe aconteceria, o  que justificava sua atitude ao dizer que estava pronta para enfrentar o passo seguinte da sua vida que seria, talvez, o casamento.

Enquanto conversava com a Frô, respondendo suas perguntas quando viu Sandoval conversando com o desconhecido.

- A Eliane não poderia vir; a Asta, olha ela lá conversando com o editor; a Amélia mandou um lindo cartão, depois eu te mostro; a Silvana Guimarães escreveu o prefácio do livro, ligou dizendo que está a caminho.

E ao virar o rosto para cumprimentar Isabel, pela segunda vez viu Sandoval falando com o desconhecido. Quem será ele? Estava curiosa, queria saber quem era, mas não podia deixar de cumprimentar a Silvana que acabava de chegar. Reparou que os dois se afastavam como se quisessem ficar sozinhos.

Voltando a realidade, impaciente, consultou o relógio. Atrasado, estava atrasado mais de uma hora. Saiu do shooping e ao atravessar a rua, foi pega pelo braço. Era Sandoval:

- Desculpe, me atrasei.

- Tudo bem. - respondeu como se nada tivesse acontecido.

Vendo o noivo o rancor desapareceu. Ao toque da mão quente a ira se desvaneceu. Ouvindo a voz máscula, aconchegante, suas pernas arquearam. Havia nela uma necessidade em tê-lo para si, ter a carne dele em sua carne. Não suportava ficar longe por muito tempo. Reconhecia o desespero em que se encontrava, mas ao lado de Sandoval, toda e qualquer preocupação sumia.

E aquela noite foi surpreendente. Lane descobriu um Sandoval que não conhecia . Convido-a para jantar num dos melhores restaurantes; tomaram champanhe, coisa que há tempos não faziam; recusou seu apartamento e não aceitou ir para a casa dela. Foram para um hotel requintado onde passaram a noite mais formidável que Lane jamais pensou que um dia passaria. Sentiu-se realizada, completa, pronta para o futuro.

No dia seguinte acordou na fluidez do sonho sem entender o que realmente acontecera. Ao se espreguiçar viu sobre a penteadeira um ramalhete de flores e ao lado uma carta. Abriu a carta:

- Querida, te amo, sou sincero. Estou indo embora. Perdoe-me.

Nisso ouviu dois toques de buzina. Foi até a janela e lá estava Sandoval ao volante do carro acenando um adeus para ela, tendo ao lado, o rapaz com quem estivera conversando durante a noite de autógrafos.

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