Meia noite e quarenta e cinco minutos marcava o
relógio do micro-ondas ao passar pela cozinha e pegar uma cerveja gelada e
abrir a porta do quintal. Amena e bonita, a madrugada estampava claridade cuja
luz inundava a pequena área vinda da lua cheia. Deitou-se na rede deixando as
pernas para fora com a ponta dos dedos tocando o chão e com isso iniciou um
lento vai e vem expulsando o tédio. E por que esse sentimento invadiu o peito
que arfava em cadência descontrolada? O que o levou a isso? Não saberia dizer, apenas deixou e, tinha
consciência, portanto não lutou, apenas deixou-se invadir pelo sentimento e
criava um círculo talvez vicioso arrastando-o naquele momento. Nisso lentamente
a lata de cerveja escorregou de seus dedos e bateu no chão produzindo um som
seco e umido. Olhou o instante, sorriu, não um sorriso triste, mas melancólico
e se viu pequeno no meio do líquido amarelo da cerveja. Não se preocupou e nem
ficou com medo, sabia que não se afogaria, isto porque, o pouco de cerveja
encheu um buraco que existia no chão e onde ele havia caído... caído! Melhor
dizendo, onde foi parar, e a profundidade do buraco não era tanta, pois o
líquido batia na altura da barriga, só se escorregasse e batesse a cabeça na
borda do buraco e desmaiasse, o que era impossível. Assim, aproveitou para
relaxar o máximo que pudesse. Nisso, escutou um som ensurdecedor e apavorou-se
ao ver um gigantesco pássaro bicar a cerveja. Encolheu-se o tanto quanto podia
na expectativa em ficar longe do bico da ave. Esperava que fosse sede que a ave
estivesse sentindo, mas para sua desgraça foi pego pelo cabelo e alçado num voo
rasante e se viu jogado no ninho cheio de filhotes. Então, reconheceu o seu
fim, cobriu os olhos, deixou-se ser bicado, e soltou o medo que o conduziu ao
pavoroso sentimento de paz. A última coisa que viu foi um enorme sorriso alegre
estampado no firmamento profundo da alma. E renasceu mais uma vez para sua
satisfação.
Pastorelli
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