terça-feira, 17 de dezembro de 2019


O vizinho chato.


Ela ouviu, quer dizer, ouviu seu nome em bom tom vindo da parte da frente da casa. Logicamente reconheceu a voz, o timbre e a sonoridade das palavras e, sem dificuldade, numa raiva, porque ele não lhe dera atenção, disse:
- Falei que é perigoso e mesmo assim subiu na laje por um capricho leviano. Ah! Ele não sabe, venho a muito tempo esperando algo acontecer, um acidente que seja, qualquer um, e ficar livre desse peste. Infelizmente, de onde ele está pendurado, poderá apenas quebrar a perna, o droga, não tenho sorte. Mas não vou socorrer, ele que se ferre.
E assim, continuou fazendo o que fazia, esperando-o se esborrachar no chão, pena que só vai quebrar a perna, se é que quebrará, bicho ruim tem sempre sorte, pensou ao abrir a torneira da pia. Lhe disseram:
- Porque não se separa?
- É, larga ele, os filhos já estão grandes, sabem se virar sozinhos.
É separar, os filhos grandes se viram sozinhos, quase riu na cara delas. Enquanto a água escorria o detergente da panela, sorriu como não pode daquela vez na frente das tias. Separar! Se soubessem que foi ela que procurou essa situação a chamariam de louca, e, quanto aos filhos... gargalhou sem emitir som, coitados, não amarram nem o cadarço do sapato quanto mais viverem sozinhos. A filha não sabe nem fazer um simples café, pedia-lhe a todo momento sua opinião para isso ou para aquilo, perguntava se podia fazer aquilo ou isso, aos vinte e dois anos só não limpava a bunda dela talvez por vergonha; o filho era ouro traste, nunca vira o tranqueira com namorada, achava até que fosse gay, um veado, não tinha perspicácia nenhuma, vive pedindo dinheiro ao pai que promete não dar mais, e sempre que o filho pede puxa da carteira. São todos uns zé ninguém...
- Não ouviu eu te chamar?
Assustou com a voz do marido a suas costas, o prato bateu na pia e quebrou.
- Não ouvi, não. O que aconteceu?
- Imprestável, isso que você é. A escada caiu ao descer da laje e fiquei pendurado, se não fosse o chato do vizinho me ajudar teria caído.
- Nossa! Desculpe, não ouvi não.
- Merece mesmo uma surra.
E lascou uns tapas na esposa que largou o que estava fazendo procurando se defender. Dos tapas seguiu-se os murros jogando-a contra as cadeiras e mesas. Em outros tempos a excitação cresceria entre os dois e, da surra, passariam para o ato sexual não importando onde estivessem ou não, era algo animalesco, desenfreado, deixando-os exaustos e satisfeitos, mas atualmente não acontecia o ato sexual, era apenas a surra. E ali no chão da cozinha, num silencioso choro amargurado ela ficou. Tempo depois, ao se levantar se arrumando para continuar o que estava fazendo, o marido passou pela cozinha dizendo:
- Vou sair. Não me espere, vou demorar.
Vai encontrar-se com a amante, pensou e se aterrorizou, pois deu-lhe a impressão dizer mentalmente alto. Instantes depois o marido passar por traz dela.
- Esqueci a chave.
Assim que ele com a chave na mão sai da cozinha, ela pega o facão do escorredor e vai atrás dele.



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