O vizinho chato.
Ela ouviu, quer
dizer, ouviu seu nome em bom tom vindo da parte da frente da casa. Logicamente
reconheceu a voz, o timbre e a sonoridade das palavras e, sem dificuldade, numa
raiva, porque ele não lhe dera atenção, disse:
- Falei que é
perigoso e mesmo assim subiu na laje por um capricho leviano. Ah! Ele não sabe,
venho a muito tempo esperando algo acontecer, um acidente que seja, qualquer
um, e ficar livre desse peste. Infelizmente, de onde ele está pendurado, poderá
apenas quebrar a perna, o droga, não tenho sorte. Mas não vou socorrer, ele que
se ferre.
E assim, continuou
fazendo o que fazia, esperando-o se esborrachar no chão, pena que só vai
quebrar a perna, se é que quebrará, bicho ruim tem sempre sorte, pensou ao
abrir a torneira da pia. Lhe disseram:
- Porque não se
separa?
- É, larga ele, os
filhos já estão grandes, sabem se virar sozinhos.
É separar, os filhos
grandes se viram sozinhos, quase riu na cara delas. Enquanto a água escorria o
detergente da panela, sorriu como não pode daquela vez na frente das tias.
Separar! Se soubessem que foi ela que procurou essa situação a chamariam de
louca, e, quanto aos filhos... gargalhou sem emitir som, coitados, não amarram nem
o cadarço do sapato quanto mais viverem sozinhos. A filha não sabe nem fazer um
simples café, pedia-lhe a todo momento sua opinião para isso ou para aquilo,
perguntava se podia fazer aquilo ou isso, aos vinte e dois anos só não limpava
a bunda dela talvez por vergonha; o filho era ouro traste, nunca vira o
tranqueira com namorada, achava até que fosse gay, um veado, não tinha
perspicácia nenhuma, vive pedindo dinheiro ao pai que promete não dar mais, e
sempre que o filho pede puxa da carteira. São todos uns zé ninguém...
- Não ouviu eu te
chamar?
Assustou com a voz
do marido a suas costas, o prato bateu na pia e quebrou.
- Não ouvi, não. O
que aconteceu?
- Imprestável, isso
que você é. A escada caiu ao descer da laje e fiquei pendurado, se não fosse o
chato do vizinho me ajudar teria caído.
- Nossa! Desculpe,
não ouvi não.
- Merece mesmo uma
surra.
E lascou uns tapas
na esposa que largou o que estava fazendo procurando se defender. Dos tapas
seguiu-se os murros jogando-a contra as cadeiras e mesas. Em outros tempos a
excitação cresceria entre os dois e, da surra, passariam para o ato sexual não
importando onde estivessem ou não, era algo animalesco, desenfreado,
deixando-os exaustos e satisfeitos, mas atualmente não acontecia o ato sexual,
era apenas a surra. E ali no chão da cozinha, num silencioso choro amargurado
ela ficou. Tempo depois, ao se levantar se arrumando para continuar o que
estava fazendo, o marido passou pela cozinha dizendo:
- Vou sair. Não me
espere, vou demorar.
Vai encontrar-se com
a amante, pensou e se aterrorizou, pois deu-lhe a impressão dizer mentalmente
alto. Instantes depois o marido passar por traz dela.
- Esqueci a chave.
Assim que ele com a
chave na mão sai da cozinha, ela pega o facão do escorredor e vai atrás dele.

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