Quatro
horas de conversa foi mais que suficiente para se falar sobre sexo, política,
cinema, televisão, filosofia, sociologia, umbanda, macumba, sondagem,
sadismo, masoquismo, pedofilia e derivados afins e, depois de consumidas doze
cervejas e várias caipirinhas, foi que ele disse autoritário, preciso ir,
estou atrasado e não sei mais o que, tudo bem, fazer o que, talvez seja
romântico tímido, tudo pode ser, porra, poderia ter sido mais específico,
dito isto por aquilo e aquilo por isto, não ter continuado a conversa,
alimentando esperanças ao dizer : preciso ir, estava era confirmando simplesmente
que não foi com a tua cara, não gostei, não estou afim, não é minha
expectativa, sei lá o que , apenas disse: preciso ir, sem mais nem menos,
na lata, de uma hora para outra, no meio da conversa, decepcionou, ele viu a
decepção no meu rosto, é para broxar qualquer um, porra e foi ele bamboleando o
corpo podre de frustrado com alguma coisa que não se sentiu bem e não quis
dizer, merda, fiquei com o meu corpo decepcionado com a falta de expectativa de
um ser que não tem o direito de agir assim, fiquei aqui com o tesão no
meio das pernas, tudo bem quem sabe na próxima vez sabendo que não haverá a
próxima porra nenhuma, nessa descrença, creio que não haverá próxima vez merda
nenhuma, podia pelo menos ter pago a metade da conta, os vinte litrão de
cerveja, caralho, digo ao garçom que não tem nada com isso e que sorri
lindamente com o sorriso hétero machista que bate na mulher como quem bate
punheta e não tem culpa pela minha falta de sorte, espera aí, sorte, por que
falta de sorte, creio que não, talvez uma estratégia mal sucedida, uma
abordagem não direcionada ao ponto nevrálgico da questão e também por fazer de
um encontro uma expectativa muito grande, isso não é falta de sorte, é uma
ilusão confiante em que daria certo e que a merda da procura se encerraria
nesse encontro e que viveria feliz para sempre, merda, merda, merda, merda...
quinta-feira, 26 de março de 2020
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