Ao olhar o copo constatei que ele não me entendera ou, talvez, não queira
me entender ou se fizesse de desentendido, o que me deixou com raiva, no
entanto não disse nada, enchi o copo. Bebi devagar saboreando a cerveja
lentamente. Não posso deixar que a ansiedade me domine novamente, por isso,
levantei-me e passei a caminhar rente a parede do bar de um lado para o outro.
Ele me olhou constrangido e envergonhado, pois sabia que não tenho que lhe dar
explicações, o que deve fazer é voltar, disse a ele. Tudo bem que sua vinda foi
uma bela surpresa e que esses dias foram maravilhosos, mas não posso aguentar a
pressão dos dias que me faltam. Terei de suportar sozinho, não posso. Voltei a
sentar. Me olhou com o olhar perdido na desesperança de existir. Disse a ele
que não era essa a maneira, mas não me ouve, passa os dias concentrado no que
não deve. Deixei de me importar com o que devo ou não. Nisso um temporal ameaça
cair aos sons de trovões e raios sacudindo nervos à flor da pele. Também ele
bebe, não como eu, mas rápido na limitação do poder que envolve o que ele é. Numa
economia de gesto sua mão pousa sobre a minha que assim que sua pele toca a
minha, retiro a mão. Ele me olha agressivo, creio que não esperava minha reação,
talvez acreditasse que ainda somos um do outro, o que deve estar cansado de
saber que não sou dele e nem ele é dono de mim, nunca fomos. Mas estávamos um
aguentando o outro. Precisava quebrar aquela realidade insuportável para criar
uma outra que não estivesse ele. Teria de caminhar com cuidado, colhendo
pequenos instantes sem me preocupar com as consequências. Assim, paguei a conta
e saímos do bar. Na rodoviária demos um beijo rápido de despedida. Ele entrou
no ônibus e não esperei pela partida. Me dirigi a plataforma do metrô. Dessa
maneira finalizei mais uma etapa da minha vida. No momento que as portas se
fecharam, tive a certeza de que estava só novamente e assim ficarei até o meu
último suspiro.
quarta-feira, 25 de março de 2020
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