quarta-feira, 25 de março de 2020

Rádio 8


Ao olhar o copo constatei que ele não me entendera ou, talvez, não queira me entender ou se fizesse de desentendido, o que me deixou com raiva, no entanto não disse nada, enchi o copo. Bebi devagar saboreando a cerveja lentamente. Não posso deixar que a ansiedade me domine novamente, por isso, levantei-me e passei a caminhar rente a parede do bar de um lado para o outro. Ele me olhou constrangido e envergonhado, pois sabia que não tenho que lhe dar explicações, o que deve fazer é voltar, disse a ele. Tudo bem que sua vinda foi uma bela surpresa e que esses dias foram maravilhosos, mas não posso aguentar a pressão dos dias que me faltam. Terei de suportar sozinho, não posso. Voltei a sentar. Me olhou com o olhar perdido na desesperança de existir. Disse a ele que não era essa a maneira, mas não me ouve, passa os dias concentrado no que não deve. Deixei de me importar com o que devo ou não. Nisso um temporal ameaça cair aos sons de trovões e raios sacudindo nervos à flor da pele. Também ele bebe, não como eu, mas rápido na limitação do poder que envolve o que ele é. Numa economia de gesto sua mão pousa sobre a minha que assim que sua pele toca a minha, retiro a mão. Ele me olha agressivo, creio que não esperava minha reação, talvez acreditasse que ainda somos um do outro, o que deve estar cansado de saber que não sou dele e nem ele é dono de mim, nunca fomos. Mas estávamos um aguentando o outro. Precisava quebrar aquela realidade insuportável para criar uma outra que não estivesse ele. Teria de caminhar com cuidado, colhendo pequenos instantes sem me preocupar com as consequências. Assim, paguei a conta e saímos do bar. Na rodoviária demos um beijo rápido de despedida. Ele entrou no ônibus e não esperei pela partida. Me dirigi a plataforma do metrô. Dessa maneira finalizei mais uma etapa da minha vida. No momento que as portas se fecharam, tive a certeza de que estava só novamente e assim ficarei até o meu último suspiro.   

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