sexta-feira, 27 de março de 2020

Rádio 6


Despertei angustiado. Era realidade? O quarto vazio. Silêncio. Estantes de segundos apavorei-me. Esperei ouvir algum som,  algo que dissesse se era realidade ou não. Tentei gritar sem sucesso. E então para meu alívio a porta do banheiro abriu. Sorri e pensei em desistir, porém continuei com a farsa. Não era culpa e,  se houvesse seria sanada no decorrer do tempo. Feliz. Estava ao lado dele e ele ao meu lado novamente. Avancei quando saímos da aquela espelunca. Preciso  salvar-me dele e ele de mim. E então o que não esperava aconteceu. Por algum motivo, destino ou não, despreparado talvez, não percebi, ficamos longe um do outro. Calmo suspirei. Salvei-me dele e ele de mim. Passei a viver para mim e ele a viver para ele tão somente, despreocupado sem a interferência um do outro. O que tornou-se agradável, tanto para mim quanto para ele. Refazíamos o dia-a-dia da forma que deve ser, pronto para o que desse e viesse. E nesse o que desse e viesse cai na rotina de apenas ser e mais nada. Sem um significado que não fosse a não ser eu mesmo. Monotonia absoluta. Prazer de respirar, viver um dia após o outro, viver o essencial milagrosamente, eis o verbo: viver! Viver gritava meu eu. Viver gritava a minha pele. Viver gritava minha alma. Viver pulsava o meu sexo. Viver intenso ou não viver. O não estar aqui desfalecido mijando ininterruptamente o que não existisse mais o que mijar. Agonia passou a ser o lema dos meus passos. Agonia conduziu meus espaços entre fileiras de rostos, mãos, peitos, pernas, sexo e buracos sem prazer, sem desejos. Bebi choro  engoli lágrimas doces de insatisfação. Perdi o tesão. Perdi o membro num orifício qualquer por desleixo, por não enrijecer mais. A partir desse momento deixei de ser o que era para me tornar o que sou: pária de mim mesmo. Zumbi descontrolado exposto...

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