— Como se fala besteira em
festa de casamento você nem imagina! Aliás, não se fala, berra, é preciso berrar
para ser ouvido. E, no entanto, entre um som e outro, entre uma voz e outra,
entre uma palavra e outra, entre uma sílaba e outra, entre uma música e outra,
e até mesmo entre um gesto e outro, há o silêncio, o silêncio cortante que não
significa nada para ninguém, mas para você significa o peso todo da festa, do
povo que sem se importar, bebe, come, dança, se embriaga, gira, vai de um lugar
a outro e não está nem aí com o que está acontecendo com você. Esse silêncio
deprime, mata. É horrível.
Ricardo abriu o vidro e cuspiu
para fora toda a raiva mórbida que se apossava dele. Olhou para Carlos que
prestava atenção no que ele falava sem tirar os olhos do que acontecia a sua
frente.
— E como você conseguiu
trabalhar com isso? — perguntou Carlos depois de mudar a marcha do veículo
olhando-o rapidamente.
— Pois é, tive que trabalhar
com isso. E não foi algo que eu descobrisse instantaneamente, depois de um
certo tempo é que percebi, eu não estava naquela balbúrdia. Foi no momento da
valsa, ao dançar com a noiva é que notei o silêncio e, então descobri que podia
sair vitorioso dessa batalha: era só me embriagar.
— Estou vendo.
Carlos olhou para Ricardo que,
com muito custo, conseguia manter os olhos abertos. Numa carícia pousou a mão
direita na coxa esquerda do amigo. Ricardo não se importou, pegou a mão do
motorista e levou-a ao peito beijando-a. Em seguida fechou os olhos e tombou a
cabeça no ombro de Carlos que disse em seu ouvido:
— Cu de bêbado não tem dono.
Devagar, quase soletrando
Ricardo respondeu:
— Vá em frente, não se acanhe,
querido.
Carlos acariciou o rosto do
amigo e sorriu satisfeito.
Carlos lembrava quando se
conheceram. Era um sábado. Raramente trabalhava de madrugada, mas naquele dia,
saindo de um encontro com os amigos, resolveu trabalhar, com uma condição:
atenderia a chamada se fosse para os lados de sua casa. Assim que ligou o
celular, apareceu a chamada de Ricardo. Não era bem para os lados do seu
bairro, mas, como estava perto, atendeu. Ao chegar ao local, encontrou Ricardo
abraçado à árvore. Assim que parou o carro, surgiu uma pessoa e ajudou Ricardo
a entrar no carro. Carlos não prestou muita atenção na pessoa.
— Leve-o direto para a casa
dele, sim? — E enfiando a cabeça para dentro da janela, disse: — Ricardo,
cuidado: cu de bêbado não tem dono.
— Engraçadinha, cuida da tua
vida.
Respondeu, vexado, fechando o
vidro.
— Não ligue para o que ela
disse.
— Nem ouvi.
E logo em seguida caíram na
risada. Momentos depois ao virar para entrar numa rua, Carlos perguntou:
— E então, é verdade?
— Verdade o que?
— Que cu de bêbado não tem
dono?
— Se você acredita nisso vai
fundo, querido.
Carlos ficou sem jeito, não
esperava uma resposta direta. Mudou a marcha e acelerou o carro. Durante o
trajeto Ricardo com a voz pastosa desfilava a inquietude sobre casamento.
— Cara, você não sabe o que é
casamento. É um peso que se deve carregar, talvez para o resto da vida. É uma incongruência
insuportável.
— Mais um motivo para não me
casar.
— E há o silêncio como coisa
amorfa que carrega todos de um lado para o outro, um peso angustiante em que
você olha para as pessoas e não acredita que está numa festa de casamento, que
duas pessoas se uniram para, talvez, daqui um ano, dois anos ou dez anos depois
se separarem, e se estiverem financeiramente bem, então é o caos, é briga sem
fim, e sempre é um dos lados que leva a pior. Percebeu isso?
— Não, não tenho paciência
para essas coisas.
— Faz bem.
Dois minutos depois, com a
cabeça encostada ao vidro da janela, Ricardo dormia. Carlos, pelo retrovisor,
olhou Ricardo todo esparramado no banco. Ainda bem que Ricardo não morava muito
longe, chegaram logo.
— Ei, acorda, Ricardo. Chegamos.
Ricardo, como se estivesse
perdido, por um momento ficou sem saber o que fazer e, com muito custo, abriu a
porta do carro e deslizou para a calçada, ficando com uma perna dentro do
veículo.
— Você está ruim mesmo, hein,
cara? Deixa eu te ajudar.
Com muito custo, colocou
Ricardo em pé.
— Por favor, se não for te
pedir muito, me leve até o meu apartamento.
Com o braço direito de Ricardo
em volta do pescoço, praticamente arrastando-o, Carlos conseguiu chegar ao
elevador.
— Que andar?
— Ahn?
— Andar, que andar?
— Décimo oitavo.
— Caralho, o último.
— Acho que vou vomitar.
Sem dar tempo de se esquivar, Carlos
recebeu o jato de vomito em seu peito. A camisa e calça ficaram sujas pela
gosma fedida e quente molhando-o todo.
— Puta que pariu, cara.
Gritou empurrando Ricardo que
escorregou pelo chão do elevador como um boneco entregue à própria sorte.
Carlos, puto, quis bater, socar, chutar Ricardo, chegando ao ponto de larga-lo
dentro do elevador e ir embora. No entanto, engolindo a bronca com dificuldade,
arrastou-o para dentro do apartamento e a primeira coisa que fez foi levá-lo
para debaixo do chuveiro com roupa e tudo. Em seguida jogou-o na cama e, despindo-se,
desabou ao lado de Ricardo e caiu num sono profundo.
— Bom dia. Acorda molenga.
Ricardo entrou no quarto com a
bandeja de café que depositou no colo de Carlos.
— Bom dia — respondeu Carlos,
beijando-o.
— O que faremos hoje? — perguntou
Carlos, tomando o café. Ricardo, em pé, olhando pela janela, respondeu
suspirando:
— Nada.
— Como nada?
— É, nada.
Sentando-se na beirada da
cama, Ricardo olhou bem nos olhos do amante e com voz decidida disse:
— Sabe, Carlos, sou muito
grato em tê-lo conhecido, desde o primeiro casamento em que você foi me buscar.
Te amo demais, mas preciso acabar com tudo, festas, casamentos, formaturas, até
com o nosso relacionamento. Estou cansado de estar plantando no jardim dos
outros, tenho que plantar no meu jardim. Entende?
— Que você está cansado
entendi e estava pensando em falar com você sobre isso, mas, acabar com nosso
relacionamento, não entendi direito.
— É que tudo o que faço, eu
faço para os outros, nada para mim... até mesmo esse café que você está bebendo
é feito para você e não para mim.
— Não entendo por que acabar
com o nosso relacionamento.
— Eu disse em acabar com o
nosso relacionamento?
— Sim, disse.
Ricardo franziu a testa,
contrariado, não tinha certeza se dissera ou não.
— Tem certeza?
Carlos apontando para o peito
do amigo, disse:
— Claro que disse, rebobine a
fita...
— Rebobine a fita, essa é
velha hein?
Carlos balançou os ombros como
se dissesse:
— E daí?
— Bom, se eu disse isso, me desculpe,
não tive a intenção.
— O que você quis dizer é dar
um tempo, não é isso?
— Olha, não é bem isso.
Notando desconforto nos olhos
do amigo, sabia que vinha uma série de explicações, das quais não se chegaria a
um consenso real. Por isso, suspirando em demonstração de que tudo aquilo não
estava certo, perguntou:
— E o que é, então.
— Não sei como te explicar,
não tenho palavras certas, vou largar tudo, parar com esse negócio de promover
festas, aniversários, palestras, tudo o mais, viver um dia por vez da maneira
que eu quiser.
— Sei. E para isso precisa
romper nosso relacionamento?
— Talvez não...
— Vamos continuar pelo menos
morando juntos?
— Se estou lhe dizendo que não
quero mais plantar no jardim dos outros, como podemos continuar morando juntos?
Pois dessa maneira plantarei no seu jardim.
— E eu plantarei no seu.
— Não é bem assim.
— Como é então?
— Olha, me sinto preso ao
vazio entre as coisas, entre o sim e o não, entre isto e aquilo e isso está me
matando.
Carlos baixou os olhos já
sabendo o que veria depois.
— E o que pretende fazer?
— Pegar a estrada sem rumo, ir
aonde o meu instinto achar que devo ir.
— E eu como fico?
— Se há amor, você me
esperará, assim como, se há amor em mim eu voltarei.
Carlos raivoso, levantou-se,
derrubando bandeja, copo, pão, e, sem se importar, gritou, entrando no
banheiro.
— Se é assim que você quer,
tchau e boa viagem, mas, uma coisa lhe digo, não sei se até você voltar, se
voltar, o que acredito que não, o seu lugar poderá estar ocupado por outro.
Dois dias depois, Ricardo
partia para aquilo que nem ele sabia o que era. E no ano seguinte, Carlos
recebe pelo correio os pertences do amigo e um comunicado informando que
Ricardo faleceu em decorrência de um tiro no pé devido a uma briga num bar nas
Ilhas Canárias.
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