segunda-feira, 27 de abril de 2020

Série desenho 98



Eme

Emeraldo saiu de casa cedo. Não disse nada, nem bom dia e nem tomou café. Saiu simplesmente. Não foi de carro, tomou o ônibus que passava em frente a casa e, depois o metrô. Em pé segurando na barra fria de metal, com a cabeça apoiada no braço direito chegou à conclusão que não valia a pena viver dentro de uma perspectiva sem valor, vazia, sem significado. Pra que esse ir e vir insensato? Colher a pressão de estar vivo, de estar fazendo algo inútil, sem prisma de melhora?
Emeraldo saiu do trem e se dirigiu para outra plataforma. Entrou no trem que voltava. Sentado com a cabeça apoiado no vidro da janela, via as imagens passarem vertiginosa sem tempo de se fixar num ponto. Sua vida era assim, vertiginosa, sem se fixar num ponto. Uma hora era o patrão, outra ora era a amante, em outro momento era a esposa, quando não os filhos, e ultimamente o amigo vinha lhe propondo algo sórdido. Queria que morassem juntos. Não estava esquecendo as prestações das escolas dos filhos menores e o colégio do filho maior. A vaidade descontrolável da esposa e suas artimanhas fúteis de socialite. Os amigos que cobravam sua presença nos jogos de futebol aos domingos com seus machismos preconceituosos arrogantes.
Emeraldo saiu do trem e se dirigiu para outra plataforma pendendo o corpo pra frente quando o trem saiu do túnel ensanguentando quem estava por perto.

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