Eme
Emeraldo saiu de casa cedo. Não disse nada, nem bom
dia e nem tomou café. Saiu simplesmente. Não foi de carro, tomou o ônibus que
passava em frente a casa e, depois o metrô. Em pé segurando na barra fria de
metal, com a cabeça apoiada no braço direito chegou à conclusão que não valia a
pena viver dentro de uma perspectiva sem valor, vazia, sem significado. Pra que
esse ir e vir insensato? Colher a pressão de estar vivo, de estar fazendo algo
inútil, sem prisma de melhora?
Emeraldo saiu do trem e se dirigiu para outra
plataforma. Entrou no trem que voltava. Sentado com a cabeça apoiado no vidro
da janela, via as imagens passarem vertiginosa sem tempo de se fixar num ponto.
Sua vida era assim, vertiginosa, sem se fixar num ponto. Uma hora era o patrão,
outra ora era a amante, em outro momento era a esposa, quando não os filhos, e
ultimamente o amigo vinha lhe propondo algo sórdido. Queria que morassem
juntos. Não estava esquecendo as prestações das escolas dos filhos menores e o
colégio do filho maior. A vaidade descontrolável da esposa e suas artimanhas
fúteis de socialite. Os amigos que cobravam sua presença nos jogos de futebol
aos domingos com seus machismos preconceituosos arrogantes.
Emeraldo saiu do trem e se dirigiu para outra
plataforma pendendo o corpo pra frente quando o trem saiu do túnel
ensanguentando quem estava por perto.

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