Defunto
Um silêncio de ruídos abafados, vozes sussurradas ao
pé do ouvido, passos leves no assoalho antigo, aroma de café requentado, reza a
meia voz, reinava em volta do caixão colocado no centro da sala. Esposa,
filhos, parentes, amigos, conhecidos e curiosos, numa referência à morte,
permaneciam cabisbaixos em respeito ao defunto.
Apenas uma criança de seus oitos anos, sentada no colo
da mãe, olhos arregalados sem entender o que se passava, por mais que
explicassem, permanecia impassível a tudo aquilo. Tagarelava com a mãe, com as
pessoas ao lado, impaciente queria descer, andar, não sabia o do porque que o
prendiam ali, num lugar sombrio onde as pessoas choravam e falavam baixinho.
- Fique quieto, João Cláudio Jr, respeite o vovô que
morreu.
Nisso, vindo do caixão, ouviu-se um som como se fosse
flatulência sem que alguém pudesse explicar. Talvez, por estar horas deitado,
os gases que davam a aparência de inchado ao defunto, naquele momento foi expelido.
Ninguém ousou se pronunciar, todos ficaram quietos como se nada ouviram. João
Cláudio Jr. safou-se do colo da mãe e, chegando bem perto do caixão, disse com
uma dignidade autoritária:
- Oh! Vô não tem respeito não, peidar na frente de
todo mundo.
E com toda a ingenuidade, para o espanto da mãe e dos
presentes, voltou para o colo materno e ficou quieto o velório todo.
desenho: pastorelli

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