quinta-feira, 4 de junho de 2020

Contos surrealistas 148


Maria Clarice

Maria Clarice nascia livre. Ao primeiro toque do bip do rádio relógio, Maria Clarice se expressava livre. Uma onda revigorante tomava o peito, acariciava a alma. Sem exagero ou aflição, freava a ansiedade, se aprontava, tomava café e saia. Mais um dia em que posso ser livre era o que dizia ao pisar a calçada. Mais um dia em que posso expor minha liberdade sem medo do perigo. Assim era Maria Clarice.
Um dia, na sua alegria infantil de adulto que sabe o que faz e quer, foi surpreendida a porta de casa. Os funcionários do correio não puderam fazer nada, estavam do outro lado da rua. Ao lado, a escola de dança, também não ouviram nada. O ponto de ônibus estava vazio.
Os projetos na ponta do desejo para a finalização, os sonhos elaborados com acuidade se livrando das decepções ou, até mesmo, das ilusões. No dedo só a marca do anel do noivado, e ao seu lado, com os olhos abertos, os lábios sorrindo, a poça de sangue escorria para o meio fio da calçada.
Maria Clarice nascia todos os dias livre sem saber que a vida é a base de toda tragédia.

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