Maria Clarice
Maria Clarice nascia livre. Ao primeiro toque do bip
do rádio relógio, Maria Clarice se expressava livre. Uma onda revigorante tomava
o peito, acariciava a alma. Sem exagero ou aflição, freava a ansiedade, se
aprontava, tomava café e saia. Mais um dia em que posso ser livre era o que
dizia ao pisar a calçada. Mais um dia em que posso expor minha liberdade sem
medo do perigo. Assim era Maria Clarice.
Um dia, na sua alegria infantil de adulto que sabe o
que faz e quer, foi surpreendida a porta de casa. Os funcionários do correio
não puderam fazer nada, estavam do outro lado da rua. Ao lado, a escola de
dança, também não ouviram nada. O ponto de ônibus estava vazio.
Os projetos na ponta do desejo para a finalização, os
sonhos elaborados com acuidade se livrando das decepções ou, até mesmo, das
ilusões. No dedo só a marca do anel do noivado, e ao seu lado, com os olhos
abertos, os lábios sorrindo, a poça de sangue escorria para o meio fio da
calçada.
Maria Clarice nascia todos os dias livre sem saber que
a vida é a base de toda tragédia.
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