Academia Billard
Os cincos dedos
da mão direita se fecharam no corrimão frio. Parado com o pé esquerdo no
primeiro degrau, por instantes pensou em voltar. No entanto ouvia a orquestra
tocando as costumeiras músicas. Com isso se passaram segundos que o cérebro não
computou, pois não pensava nos segundos e muito menos nos minutos. Casais
conversando animadamente passavam sem dar a mínima para ele.
Júlio pouco se
importava com a música, indeciso não sabia se subia ou se dava meia volta,
afinal viera confirmar o que lhe disseram: Julieta estava traindo-o. E se
queria mesmo saber era só subir a escada da Academia Billard de Danças. E se
fosse verdade? Como procederia? Brigar? Bater no desgraçado? Arrancar a força
Julieta do salão? Que angustiante decidir o que não se sabe se é verdade ou
não?
Os cincos dedos
da mão direita fechada no corrimão frio enregelava a pele. O pé esquerdo no
primeiro degrau sofreu uma inclinação recebendo todo o peso do corpo. Isto
porque a situação se complicava e a indecisão começava a irritar. Os olhos embaçados
se fixaram no vazio a sua frente. Casais subiam e desciam a escada, abraçados,
conversando. Como gostaria de ser um desses casais! A vida não poderia ter
aprontado com ele dessa maneira. E como ficaria? O que dirá aos amigos, sua mãe
que nunca foi com a cara de Julieta, os parentes... Em fim, o mundo desabava
sobre os ombros. O que estariam fazendo lá cima? Dançando, oras, de corpo
colado, um sentindo o cheiro do outro. Se é que estavam ali. Talvez, tenham ido
ao motel...
Júlio tomado
pelo ciúme corroia-se de ódio, não por ser traído, se é que estava sendo
traído, mas sim, por ser indeciso, sem saber o que fazer. Se fosse outro
qualquer teria subido a escada e matado os dois no meio do salão. Covarde,
tinha horror à violência e, principalmente, as consequências. Fazia de tudo
para ficar longe de complicações e, Julieta aprontava para cima dele. Como a
odiava naquele momento. O que aconteceu? Não foi perspicaz o suficiente em
notar mudança no relacionamento?
Os cincos dedos
da mão direita permaneciam numa atitude desleixada no corrimão frio. O pé
esquerdo não estava mais no primeiro degrau da escada. Não suportava mais o
peso todo do corpo que, agora, era distribuído para os dois pés. Por fim, concluiu
que, se houve algum erro, esse erro partiu dele, não teve o poder suficiente em
prender Julieta. Portanto o que tinha a fazer era ir embora. Esquecer tudo e
continuar com a vida de sempre.
E no momento em
que os cincos dedos da mão direita deixaram o corrimão frio e, o pé esquerdo já
não permanecia mais no primeiro degrau da escada, Júlio teve a revelação da
verdade. Ele não pertencia à vida de Julieta, e, ao entender isso se tornou
livre, o passado e o presente não lhe interessava mais, apenas o futuro lhe
daria prazer.
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