sábado, 25 de julho de 2020

Contos surrealistas 124


                             Academia Billard

Os cincos dedos da mão direita se fecharam no corrimão frio. Parado com o pé esquerdo no primeiro degrau, por instantes pensou em voltar. No entanto ouvia a orquestra tocando as costumeiras músicas. Com isso se passaram segundos que o cérebro não computou, pois não pensava nos segundos e muito menos nos minutos. Casais conversando animadamente passavam sem dar a mínima para ele.
Júlio pouco se importava com a música, indeciso não sabia se subia ou se dava meia volta, afinal viera confirmar o que lhe disseram: Julieta estava traindo-o. E se queria mesmo saber era só subir a escada da Academia Billard de Danças. E se fosse verdade? Como procederia? Brigar? Bater no desgraçado? Arrancar a força Julieta do salão? Que angustiante decidir o que não se sabe se é verdade ou não? 
Os cincos dedos da mão direita fechada no corrimão frio enregelava a pele. O pé esquerdo no primeiro degrau sofreu uma inclinação recebendo todo o peso do corpo. Isto porque a situação se complicava e a indecisão começava a irritar. Os olhos embaçados se fixaram no vazio a sua frente. Casais subiam e desciam a escada, abraçados, conversando. Como gostaria de ser um desses casais! A vida não poderia ter aprontado com ele dessa maneira. E como ficaria? O que dirá aos amigos, sua mãe que nunca foi com a cara de Julieta, os parentes... Em fim, o mundo desabava sobre os ombros. O que estariam fazendo lá cima? Dançando, oras, de corpo colado, um sentindo o cheiro do outro. Se é que estavam ali. Talvez, tenham ido ao motel...
Júlio tomado pelo ciúme corroia-se de ódio, não por ser traído, se é que estava sendo traído, mas sim, por ser indeciso, sem saber o que fazer. Se fosse outro qualquer teria subido a escada e matado os dois no meio do salão. Covarde, tinha horror à violência e, principalmente, as consequências. Fazia de tudo para ficar longe de complicações e, Julieta aprontava para cima dele. Como a odiava naquele momento. O que aconteceu? Não foi perspicaz o suficiente em notar mudança no relacionamento?
Os cincos dedos da mão direita permaneciam numa atitude desleixada no corrimão frio. O pé esquerdo não estava mais no primeiro degrau da escada. Não suportava mais o peso todo do corpo que, agora, era distribuído para os dois pés. Por fim, concluiu que, se houve algum erro, esse erro partiu dele, não teve o poder suficiente em prender Julieta. Portanto o que tinha a fazer era ir embora. Esquecer tudo e continuar com a vida de sempre.
E no momento em que os cincos dedos da mão direita deixaram o corrimão frio e, o pé esquerdo já não permanecia mais no primeiro degrau da escada, Júlio teve a revelação da verdade. Ele não pertencia à vida de Julieta, e, ao entender isso se tornou livre, o passado e o presente não lhe interessava mais, apenas o futuro lhe daria prazer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...