quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Contos surrealistas 114

 

Boate Futuro

 

Na porta da boate, vestido a caráter, camisa branca, paletó preto, calça jeans e sapatos branco, impaciente Mateus esperava como haviam combinado. Ou talvez, por não controlar a ansiedade, tinha chegado mais cedo. Tudo bem, até pode ser, mas consultando não sei quantas vezes o relógio, teve a certeza do atraso do amigo.

Josué começava sentir a presença de Mateus incomodando-o. Enquanto se vestia, matutava como tocar no assunto com Mateus. Conheciam-se a mais de sete ou oito anos, mas tudo um dia acaba, disse ao vestir o paletó preto.

A noite prometia. Temperatura agradável. A movimentação em frente ao clube era grande. Não parava de chegar gente. A fila estava descomunal. Ainda não era meia-noite, pelo vai e vem Mateus imaginava a agitação dentro do clube intensa. Muitos, mesmo tendo o ingresso, eram barrados, não constavam da lista vip de reservas.

Mateus jogou o cigarro longe que ao bater no asfalto soltou pequenas fagulhas até parar embaixo do carro. Irritado mordeu de leve os lábios procurando se controlar. Josué estava mais de uma hora atrasado. Ao retirar outro cigarro do maço viu o amigo virar a esquina.

- Mais um pouco estava quase indo embora. – disse num tom azedo.

- Não seja dramático. – respondeu Josué.

- Não sou dramático, sou realista.

Olhando para o letreiro de neon com o nome da boate, Josué respondeu pensativo:

- Vejo que o nosso futuro será sombrio.

- O que você disse?

- Deixa pra lá. Vamos logo.

A noite estava começando. Mateus percebeu o quanto de decepcionante iria ser. Não queria pensar no que não devia, no entanto a atitude de Josué fazia com que as coisas fossem diferentes. Não queria brigar, assim ignorou ao ver Josué com o olhar perdido longe dali. Também não deu importância quando o amigo lhe disse:

- Não espere por mim, lá dentro a gente se encontra.

Está certo, não vou te esperar e duvido que nos encontremos lá dentro, pensou Mateus lendo o nome da boate: Futuro.

- Meu futuro está lá dentro, aqui fora deixo meu passado. – disse entregando o ticket ao entrar.

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