segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 102

                                                     Prisioneiro

 

A música suave levava-o a sonolência. Sempre a mesma, não mudava. Sem acordes altos e nem baixos, com uma sonoridade reta sem volteios. O torpor o vencia fazendo-o cair numa dolência a ponto de perder a noção do tempo. Já não sabia quantas horas ou dias estava acorrentado. Com os olhos e boca vendados, não enxergava nada, apenas ouvia sons de passos, de objetos metálicos, e a maldita suave música que não parava nunca. Além disso, sentia roçar a pele das bochechas um rústico pano, o que fazia acreditar ser um capuz. O medo, certeza de fraqueza, alimentava a força em evitar o medo, o que lhe dava segurança para não cair no desespero. Onde estava? Porque estava amarrado, vendado e encapuzado? O que queriam dele? Não era rico, nem famoso, pobre burguês sem chance de vencer nesse mundo capitalista, não conseguia imaginar o motivo disso tudo. Às vezes sentia a mão de alguém entre a roupa acariciando a pele, outras vezes, algo que não definia roçar o rosto por cima do capuz.

Raquel com certeza estaria zangada. Quanto tempo será que o esperou? Tinham combinado de se encontrarem em frente ao Cine Unibanco da Rua Augusta, mas não lembra se chegou a vê-la ou não. Tinha parado na esquina com a Rua Luiz Coelho quando um sujeito ao passar por ele esbarrou em seu ombro. Quando acordou, acreditava que tinha sido drogado ou algo semelhante, pois ao abrir os olhos encontrou a escuridão. Tentou falar, como se estava amordaçado, tentou se mexer como se estava amarrado, apenas ouvia passos, objetos metálicos sendo manuseados e a torturante música sendo tocada continuamente. Por quanto tempo ficou desacordado?

Nisso ouviu uma voz cortante gritar:

- Corta.

Através da venda percebeu que luzes foram acesas. Vozes gritavam ordens, reclamavam pedidos, parecia que havia mais pessoas. O que está acontecendo? Descobriram-me? Será isso?

- Diretor, onde está o Roberto?

- Não tinha gravação com ele hoje.

- Não?

- Não, por quê?

- O que ele está fazendo ali no canto do cenário?

Fui descoberto, até que fim.

- Ah! Aquilo é a caixa do prisioneiro que usamos como duble quando não há gravações com o Roberto.

Como duble? Não estão me vendo aqui? Que silêncio! Apagaram as luzes novamente. Pelo menos não estou ouvindo mais a droga de música, pensou ao encostar a cabeça na madeira da caixa preciso descansar, amanhã haverá novas gravações.

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