Prisioneiro
A música suave levava-o a sonolência. Sempre a mesma,
não mudava. Sem acordes altos e nem baixos, com uma sonoridade reta sem
volteios. O torpor o vencia fazendo-o cair numa dolência a ponto de perder a
noção do tempo. Já não sabia quantas horas ou dias estava acorrentado. Com os
olhos e boca vendados, não enxergava nada, apenas ouvia sons de passos, de objetos
metálicos, e a maldita suave música que não parava nunca. Além disso, sentia
roçar a pele das bochechas um rústico pano, o que fazia acreditar ser um capuz.
O medo, certeza de fraqueza, alimentava a força em evitar o medo, o que lhe
dava segurança para não cair no desespero. Onde estava? Porque estava amarrado,
vendado e encapuzado? O que queriam dele? Não era rico, nem famoso, pobre
burguês sem chance de vencer nesse mundo capitalista, não conseguia imaginar o
motivo disso tudo. Às vezes sentia a mão de alguém entre a roupa acariciando a
pele, outras vezes, algo que não definia roçar o rosto por cima do capuz.
Raquel com certeza estaria zangada. Quanto tempo será
que o esperou? Tinham combinado de se encontrarem em frente ao Cine Unibanco da
Rua Augusta, mas não lembra se chegou a vê-la ou não. Tinha parado na esquina
com a Rua Luiz Coelho quando um sujeito ao passar por ele esbarrou em seu
ombro. Quando acordou, acreditava que tinha sido drogado ou algo semelhante,
pois ao abrir os olhos encontrou a escuridão. Tentou falar, como se estava
amordaçado, tentou se mexer como se estava amarrado, apenas ouvia passos,
objetos metálicos sendo manuseados e a torturante música sendo tocada
continuamente. Por quanto tempo ficou desacordado?
Nisso ouviu uma voz cortante gritar:
- Corta.
Através da venda percebeu que luzes foram acesas.
Vozes gritavam ordens, reclamavam pedidos, parecia que havia mais pessoas. O
que está acontecendo? Descobriram-me? Será isso?
- Diretor, onde está o Roberto?
- Não tinha gravação com ele hoje.
- Não?
- Não, por quê?
- O que ele está fazendo ali no canto do cenário?
Fui descoberto, até que fim.
- Ah! Aquilo é a caixa do prisioneiro que usamos como
duble quando não há gravações com o Roberto.
Como duble? Não estão me vendo aqui? Que silêncio!
Apagaram as luzes novamente. Pelo menos não estou ouvindo mais a droga de
música, pensou ao encostar a cabeça na madeira da caixa preciso descansar,
amanhã haverá novas gravações.
Nenhum comentário:
Postar um comentário