sábado, 6 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 108

 

Jorge e José


A noite avançava madrugada adentro. Jorge saboreando o uísque observava a pista de dança. Abarrotada fazia com que o pessoal se esfregasse um ao outro. Já não se dançava, parecia um bando de feras se arrastando pelo prazer de espantar a solidão. Às vezes Jorge curtia um desprezo por aquilo tudo, outras um intenso prazer descontrolado a ponto de paralisar os movimentos que, depois, se transformava num gosto amargo de algo perdido. Não deixava a porta aberta para o remorso e, muito menos, para o arrependimento.

José se embrenhara no meio da multidão deixando-o pateticamente sozinho. Não se aborrecia com isso, afinal estava ali por vontade própria. Aceitara o convite pelo prazer da aventura. Durante o trajeto não disseram nada além dos cumprimentos e apresentações. Jorge em determinado momento quase desistiu, mas foi segundos rápido que afastou do pensamento. Não sabia explicar, assim que entrou no carro, notou em José, uma pessoa em que podia confiar.

Sozinho José dançava jogando o corpo esguio ao ritmo da música numa leveza absurda. Gostava das pessoas, até talvez, da humanidade. Agia descontrolado numa fúria branda, se arriscando ao adágio de ganhar ou perder. Não confiria as perdas e muito menos os ganhos. Para que? Se aborrecer inutilmente, dizia todas as vezes que se aventurava pelas noites de insônia. Ao ver o rapaz saindo da padaria, parado no meio fio da calçada, imaginou que estivesse indeciso, sem saber o que fazer ou para aonde ir. Num gesto instintivo encostou o carro e fizera o convite. Surpreso, não esperava aceitação, cumprimentou, se apresentou e no silêncio das vozes seguiram até a boate.

O sono embebido pelo álcool pesava nos olhos de Jorge. As pernas, por estar muito tempo sentado, adormecidas, o irritava, portanto, não viu outra solução a não ser andar pelo salão. Foi então que a encontrou, quer dizer, se trombaram. Por estar meio embriagada, pediu ajuda para chamar um taxi. Como bom cavalheiro, Jorge a levou até a saída e a colocou dentro do veículo.

De onde estava, tendo uma visão boa do lance, José viu quando os dois, de braços dados, se encaminharam para a saída. Estando longe não ouviu o que disseram, apenas imaginou e, como a imaginação é um bicho de asas, voou para lugares onde José não poderia fazer parte. A raiva e o ódio, amigas da decepção, embaçou a visão dos sentimentos. 

Ao entrar no apartamento, o ar abafado invadiu seus poros. Abriu as janelas, queria amplidão dos espaços, sair da condição de fera sem ter aonde ir. Abriu a geladeira e tomou um longo gole de água gelada. Em alguma parte do corpo crescia uma ferida. Jose se jogou na cama e caiu num sono profundo.

Lá fora, começava a surgir os primeiros clarões do sol.

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