Classificados.
O tapa não foi tão
forte como pareceu, mas repercutiu que todos pararam o que estavam fazendo e olharam
para eles. Os dois no meio da sala olhavam-se nos olhos onde chispas de ódio fulminavam-nos.
Não disseram nada e nada tinham para dizerem. Ele levantou a mão para revidar,
no entanto, acanhado abaixou e deslizou-a rente a perna fechando os dedos com
tanta força que pequenas gotas de sangue surgiram entre as unhas. Ela, altiva
virou o corpo e seguiu para a sua sala em passos firmes que ressoavam como
alfinetadas no pessoal. Ninguém entendeu nada, um pouco antes os dois
conversavam numa boa, dando risadas, alegres e de repente o tapa, como ficou
denominado o dia, repercutiu pela sala. Todos queriam saber o do porquê, o que
acontecera para que chegassem a esse ponto. Assim, como ninguém deu satisfação,
voltaram aos seus afazeres com os olhos fixos aos movimentos dos dois. No
entanto cada um entrou em suas respectivas salas e de lá saindo somente com o
findar do expediente.
Não
acreditou como ela chegará a essa resolução drástica a ponto de esbofeteá-lo na
frente da empresa toda, quer dizer, da seção. Não tinha o direito em
humilhá-lo. Não, não tinha, repetia enquanto digitava a planilha que tinha que
entregar. Os dedos longos, unhas bem tratadas, se movimentavam numa agilidade
feroz como se fossem amassar as teclas. E a cada palavra, a cada letra que
surgiam na planilha relembrava os momentos em que passaram juntos, desde o
instante em que fora admitido na empresa. Passando de um bom dia todas as
manhãs e de uma boa tarde ao findar do expediente, foram se aperfeiçoando no
relacionamento. Até que, pelas qualidades profissionais, foram designados a
trabalharem juntos o que ocasionou o surgimento do amor, era o que pensava até
aquele dia.
Terminou
a planilha e enviou ao chefe. Ao se dirigir ao bebedouro sentiu os olhares
sobre ele. Lentamente virou a cabeça em direção a sala dela. Pareia absorta no
que fazia, não se interessava pelo que se passava fora de sua sala. Mal podia
ele saber que ela o seguia com os cantos dos olhos. Nisso, numa das portas das
salas surgiu um senhor e gritou o seu nome que estremeceu a seção, até ela
olhou para ele.
---
Senhor Adelbardo, o senhor viu a planilha que me mandou?
Assim
que ouviram a pergunta do chefe, todos olharam para a tela dos seus
computadores e o aplaudiram. Atrapalhado, correu para a sua sala e abriu a
planilha, e entre envergonhado e contente viu escrito ao final:
---
Marta, te amo.
Olhou
em direção a sala dela e a viu olhando para ele. Não precisavam dizer mais nada.
Afoitos correram um para o outro e no meio da seção se beijaram sofregamente.
Dois dias depois, estavam os dois consultando os classificados dos jornais.
É
isso... ou, não é?
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