terça-feira, 30 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.652(2021)

         

            Classificados.

 

O tapa não foi tão forte como pareceu, mas repercutiu que todos pararam o que estavam fazendo e olharam para eles. Os dois no meio da sala olhavam-se nos olhos onde chispas de ódio fulminavam-nos. Não disseram nada e nada tinham para dizerem. Ele levantou a mão para revidar, no entanto, acanhado abaixou e deslizou-a rente a perna fechando os dedos com tanta força que pequenas gotas de sangue surgiram entre as unhas. Ela, altiva virou o corpo e seguiu para a sua sala em passos firmes que ressoavam como alfinetadas no pessoal. Ninguém entendeu nada, um pouco antes os dois conversavam numa boa, dando risadas, alegres e de repente o tapa, como ficou denominado o dia, repercutiu pela sala. Todos queriam saber o do porquê, o que acontecera para que chegassem a esse ponto. Assim, como ninguém deu satisfação, voltaram aos seus afazeres com os olhos fixos aos movimentos dos dois. No entanto cada um entrou em suas respectivas salas e de lá saindo somente com o findar do expediente.

            Não acreditou como ela chegará a essa resolução drástica a ponto de esbofeteá-lo na frente da empresa toda, quer dizer, da seção. Não tinha o direito em humilhá-lo. Não, não tinha, repetia enquanto digitava a planilha que tinha que entregar. Os dedos longos, unhas bem tratadas, se movimentavam numa agilidade feroz como se fossem amassar as teclas. E a cada palavra, a cada letra que surgiam na planilha relembrava os momentos em que passaram juntos, desde o instante em que fora admitido na empresa. Passando de um bom dia todas as manhãs e de uma boa tarde ao findar do expediente, foram se aperfeiçoando no relacionamento. Até que, pelas qualidades profissionais, foram designados a trabalharem juntos o que ocasionou o surgimento do amor, era o que pensava até aquele dia.

            Terminou a planilha e enviou ao chefe. Ao se dirigir ao bebedouro sentiu os olhares sobre ele. Lentamente virou a cabeça em direção a sala dela. Pareia absorta no que fazia, não se interessava pelo que se passava fora de sua sala. Mal podia ele saber que ela o seguia com os cantos dos olhos. Nisso, numa das portas das salas surgiu um senhor e gritou o seu nome que estremeceu a seção, até ela olhou para ele.

            --- Senhor Adelbardo, o senhor viu a planilha que me mandou?

            Assim que ouviram a pergunta do chefe, todos olharam para a tela dos seus computadores e o aplaudiram. Atrapalhado, correu para a sua sala e abriu a planilha, e entre envergonhado e contente viu escrito ao final:

            --- Marta, te amo.

            Olhou em direção a sala dela e a viu olhando para ele. Não precisavam dizer mais nada. Afoitos correram um para o outro e no meio da seção se beijaram sofregamente. Dois dias depois, estavam os dois consultando os classificados dos jornais.

            É isso... ou, não é?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...