A vida é absurda.
Olhava a chuva cair desesperadamente formando enxurrada.
Com os olhos azuis, sentindo a respiração embaçar o vidro da janela, imaginava
ser o comandante, melhor, o pirata do barquinho de papel enfrentando as ondas
do pequeno rio. Quando a chuva diminuía, rasgava folhas e folhas de caderno,
colocava o barquinho na água e o acompanhava até virar a esquina onde um bueiro
engolia a brincadeira. Para onde iam os barquinhos? A mãe dizia que para o rio
e que o rio ia para o mar. Então no mar o barquinho enfrentava o perigo que sua
imaginação criava.
Sentiu um tranco. Um carro branco todo amassado passou
por ele arrastando-o. Reparou que não tinha ninguém. Não podia fazer nada e
nada adiantava girar a direção ou brecar e, muito menos, acelerar, não
conseguiria sair dali mesmo. Por outro lado, descobriu que não queria ser
resgatado. Já que o destino o trouxe onde estava que fosse levado para onde
deveria ser. Soltou a direção, relaxou deixando os braços caírem ao lado do
corpo. A sua frente um mar de água suja o arrastava lentamente. Sentia-se
vencido. Lutou tudo o que podia, o barco estava a mercê das águas, adernando ao
prazer das ondas.
Choveu o dia inteiro. Ao sair do imponente prédio foi
que surgiu a idéia, a princípio achou maluca, que não teria coragem, por outro
lado a chuva estava a favor, não pensariam... Talvez, fosse um absurdo, mas a
vida em si não é um absurdo? Perguntou ao apoiar a testa em cima do braço que
envolvia a direção. Desde a infância onde nos dias de chuva colocava barquinhos
de papel em enxurradas, passando pela adolescência, até os dias de hoje, sua
vida não tem sido apenas absurdo? Então mais um não faria diferença e, além do
mais, não precisaria deixar bilhete enigmático. Era só jogar o carro no meio da
água e deixar-se arrastar. Apenas com uma diferença, não cairia no bueiro,
cairia no rio e depois... no mar.
E no dia seguinte, era apenas um número nos trezentos desaparecidos entre mulheres, homens e crianças.
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