domingo, 30 de maio de 2021

Contos surrealistas 56

 

Aquele inverno...

O inverno aquele ano estava intenso. Diziam ser o pior dos últimos anos. O vento cortava a carne navalhando a alma em tiras de frio. As manhãs apresentavam uma densa camada de neblina congelando até o que não se via. E Marta naquela terça-feira, ao abrir a porta, não via nada, apenas notava uma mancha escura balançando no fundo do quintal. Não pensou em nada e muito menos ficou curiosa em ver o que era. Continuou fazendo as obrigações costumeiras.

Passado o velório, o enterro e, mais calma, Marta conseguiu falar sobre o acontecimento.

- Sinceramente não sabia que era ele, se soubesse teria socorrido. Preocupada em fazer o café da manhã para as crianças irem à escola, pensando no sábado o que deveria fazer para o aniversário surpresa do Roberto, não tive nem curiosidade em ir ao fundo do quintal ver o que era. Não tem mais festa surpresa, Roberto.

- Marta, não se preocupe querida. Descanse só o que eu quero e você precisa.

- Como meu pai não levanta cedo, só depois das onze horas, não tava nem aí. Quando lavava a louça do café, ao erguer a cabeça, a neblina já tinha dissipado bastante é que vi...

- Tudo bem, Marta. Não pense mais, tome o calmante e vá dormir não se preocupe cuido de tudo.

Assim que Marta subiu as escadas, Roberto pegou o bilhete em cima da mesa e, pela quarta vez leu:

 

“Meus caros filhos.

                          Não culpo ninguém desse meu ato.

Faz dois meses que fui ao médico por causa das dores no estomago e o diagnóstico foi câncer em estado avançado. As dores vão aumentar e meu fim é no funda da cama, disse o médico.

Assim para não dar trabalho a vocês antecipo meu fim.

Adeus, beijos e sejam felizes.

 

Roberto jogou o bilhete em cima da mesinha. Sentou no sofá bebendo uma boa dose de uísque.

- Merda de velho, tinha que ser no quintal? Porra! Só espero que não fique assombrando a casa.

Fechou os olhos.

- Puta que pariu o pior é que vou ficar velho também. Se o bom velhinho lá em cima assim o permitir.

Esticou-se e procurou dormir um pouco.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...