Aquele inverno...
O inverno aquele ano estava intenso. Diziam ser o pior dos últimos anos. O vento cortava a carne navalhando a alma em tiras de frio. As manhãs apresentavam uma densa camada de neblina congelando até o que não se via. E Marta naquela terça-feira, ao abrir a porta, não via nada, apenas notava uma mancha escura balançando no fundo do quintal. Não pensou em nada e muito menos ficou curiosa em ver o que era. Continuou fazendo as obrigações costumeiras.
Passado o
velório, o enterro e, mais calma, Marta conseguiu falar sobre o acontecimento.
- Sinceramente
não sabia que era ele, se soubesse teria socorrido. Preocupada em fazer o café
da manhã para as crianças irem à escola, pensando no sábado o que deveria fazer
para o aniversário surpresa do Roberto, não tive nem curiosidade em ir ao fundo
do quintal ver o que era. Não tem mais festa surpresa, Roberto.
- Marta, não se
preocupe querida. Descanse só o que eu quero e você precisa.
- Como meu pai
não levanta cedo, só depois das onze horas, não tava nem aí. Quando lavava a
louça do café, ao erguer a cabeça, a neblina já tinha dissipado bastante é que
vi...
- Tudo bem,
Marta. Não pense mais, tome o calmante e vá dormir não se preocupe cuido de
tudo.
Assim que Marta
subiu as escadas, Roberto pegou o bilhete em cima da mesa e, pela quarta vez
leu:
“Meus caros filhos.
Não culpo ninguém desse meu ato.
Faz dois meses que fui ao médico por causa das dores
no estomago e o diagnóstico foi câncer em estado avançado. As dores vão
aumentar e meu fim é no funda da cama, disse o médico.
Assim para não dar trabalho a vocês antecipo meu
fim.
Adeus, beijos e sejam felizes.
Roberto jogou o
bilhete em cima da mesinha. Sentou no sofá bebendo uma boa dose de uísque.
- Merda de
velho, tinha que ser no quintal? Porra! Só espero que não fique assombrando a
casa.
Fechou os olhos.
- Puta que
pariu o pior é que vou ficar velho também. Se o bom velhinho lá em cima assim o
permitir.
Esticou-se e procurou dormir um pouco.
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