Tiros na Paulista.
Ao
introduzir a chave na fechadura ouviu o tiro. Ficou à espreita, parado, indeciso não sabia se girava a chave e abria a
porta. De onde veio o tiro? Do apartamento? Do corredor ou da escada? Girou a
chave, empurrou devagar a porta. Foi quando ouviu o segundo tiro. Não teve
dúvida. Foram do seu apartamento. Bem devagar abriu a porta e deixou-se
escorregar para dentro. Pressionou o interruptor de luz ao mesmo tempo em que a
sala se iluminava uma sombra furtivamente entrou no quarto de hóspedes. Olhou
em volta, não viu nada que pudesse improvisar como arma. Decidiu por um
cinzeiro pesado. Deslizando rente à
parede, silenciosamente, chegou à porta do quarto. Num movimento rápido entrou
e ao mesmo tempo acendeu a luz. Não tinha ninguém. Surpreso procurou nos cantos
dos móveis, embaixo da cama, no closet, nada, não tinha ninguém. Intrigado
voltou para a sala colocando o cinzeiro em cima da mesa. Concluiu: foi sua
imaginação, só pode ser onze horas e quarenta e cinco minutos, chegando da
balada, cansado, meio embriagado, deve ter sido isso, pensou, vou tomar um
banho e cair na cama que é o melhor a fazer.
Quando
saía do chuveiro enrolado numa
toalha, a campainha tocou. Quem seria a essa hora? Eram dois homens dizendo-se
investigadores ao mostrar os distintivos.
-
Foram daqui os tiros?
-
Que tiros?
-
Disseram que os tiros foram aqui. Você não ouviu?
-
Não ouvi... Quer dizer ouvi sim, mas não foram daqui.
-
Podemos entrar?
-
Sim... Acho que podem, entrem.
Os
policiais entraram como se fossem donos.
Com um olhar de cento e oitenta graus observaram a sala toda.
-
Qual é o seu nome?
-
Meu nome... Ricardo.
-
Se importa se olharmos o resto do apartamento?
-
Não... Tudo bem podem olhar.
Enquanto
um olhava a cozinha e a área de serviço, o outro foi olhar os quartos.
-
Mora sozinho seu Ricardo?
-
Sim, moro.
-
Venha ver, seu Ricardo como a Paulista hoje está quieta. Por que será?
-
Não sei por que, respondeu Ricardo chegando à sacada.
Nisso
o policial que fora verificar os quartos, chamou:
-
Chefe, venha aqui um momento, por favor.
O
Chefe ao entrar no quarto soltou uma exclamação:
-
Puta merda, o que é isso? Seu Ricardo de quem é esse sangue?
Ricardo
chegou à porta do quarto exclamando:
-
Sangue? Onde?
-
Veja essa poça de sangue.
-
Não sei não. Quando entrei agora pouco não vi sangue nenhum.
-
Não viu a poça de sangue?
-
Não... Bem... Quando cheguei ouvi os tiros e depois um vulto entrando nesse
quarto.
-
Como é? Explique-me que não entendi.
Pacientemente
Ricardo narrou tudo o que lhe acontecera.
-
Nesse caso acho que devemos levá-lo à delegacia para um depoimento mais
esclarecedor e mandar fazer análise desse sangue.
-
É necessário isso? Não matei ninguém, os senhores não estão vendo corpo nenhum
e não fui eu o autor dos tiros.
-
Eu sei, precisamos fazer alguma coisa e, depois é só rotina, amanhã você estará
livre. Acho melhor o senhor se arrumar.
Ricardo
não entendia o do porquê de tudo
aquilo. Não esperava que um dia fosse estar dentro de uma cadeia. Já passava
mais de quatro horas, logo amanheceria e ele seria solto. Assim que saísse o
resultado da análise do sangue, estaria livre de tudo isso, voltaria à vida
normal. Quem fora o autor dos tiros? E o vulto que ele viu entrando no quarto?
Quem seria? E o sangue? Como não reparou? Não estaria sonhando? Tudo isso é um
pesadelo, isso sim. Logo voltarei à vida normal.
Nisso,
um som esquisito, como se alguém estivesse martelando madeira, interrompeu seus
pensamentos. Parecia soar longe, mas que ia se aproximando lentamente. Aquilo
martelava seu cérebro, provocando dores horríveis. Sem noção do que estava
fazendo, esticou o braço e interrompeu o rádio relógio. O suor escorria do
rosto empapando o travesseiro. Acordou aliviado. Tudo não passou de um sonho,
pensou ao abrir o chuveiro.
Chegou atrasado na empresa, e para
compensar, como forma de desculpa, se entregou completamente ao serviço. Ao
meio dia, o convidaram para o aniversário do subchefe à noite numa balada. Assim que aceitou o convite algo soou meio
estranho. Balada! Isso estava parecendo... Deixa pra lá, pensou, o negócio é
curtir a vida. Foi o que fez, não pensou em mais nada. Mas ao chegar ao
apartamento e ao introduzir a chave na fechadura ouviu o tiro. Ficou à espreita, parado, indeciso não sabia
se girava a chave e abria a porta. De onde veio o tiro? Do apartamento? Do
corredor ou da escada? Girou a chave, empurrou devagar a porta. Foi quando
ouviu o segundo tiro. Não teve dúvida. Foram do seu apartamento. Bem devagar
abriu a porta e deixou-se escorregar para dentro. Pressionou o interruptor de
luz ao mesmo tempo em que a sala se iluminava uma sombra furtivamente entrou no
quarto de hóspedes. Olhou em volta, não viu nada que pudesse improvisar como
arma. Decidiu por um cinzeiro pesado. Deslizando rente à parede, silenciosamente, chegou à porta do quarto. Num movimento
rápido entrou e ao mesmo tempo acendeu a luz. Não tinha ninguém. Surpreso
procurou nos cantos dos móveis, embaixo da cama, no closet, nada, não tinha
ninguém. Intrigado voltou para a sala colocando o cinzeiro em cima da mesa.
Concluiu: foi sua imaginação, só pode ser onze horas e quarenta e cinco
minutos, chegando da balada, cansado, meio embriagado, deve ter sido isso,
pensou, vou tomar um banho e cair na cama que é o melhor a fazer.
Quando
saía do banheiro enrolado numa
toalha, parou no meio do corredor. Já tinha passado por isso. Estou repetindo o
que aconteceu ontem? Ou será que ainda é hoje? Já vi esse filme, sei o que vai
acontecer daqui a quinze minutos. Esse é o meu mantra, precisarei repeti-lo
quantas vezes para continuar a minha vida normal?
Sentou no sofá e ficou esperando na calma da madrugada os acontecimentos se repetirem.
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