Sua majestade.
Tudo começou com uma trilha na parede branca, saindo
da caixa de tomada rente ao rodapé. Quando Jeremias abriu a caixa e retirou o
espelho, um enxame de cupim voador invadiu o quarto. Atordoado, Jeremias caiu
sentado ao ver a nuvem sobre a sua cabeça. Foi então que lembrou, ao procurar
embaixo da pia, que não tinha veneno, mesmo assim espirrou SBP na esperança de
matá-los. O que não adiantou nada, apenas deixou os insetos mais alvoroçados,
mais irritados. Nisso sentiu uma picada no pé, logo em seguida outra no ombro
e, uma terceira no peito. Uma tontura tomou conta dele fazendo-o cair
desmaiado.
Aos poucos foi abrindo os olhos. Não distinguia as
formas esquisitas a sua frente. Ouviu um chiado, não soube como definir, mas
entendeu o som, ou melhor, dizendo, as palavras contidas no chiado:
- Apesar de que a morte é só o começo, posso dizer que
você não está morto.
- Não estou morto? Então onde estou?
- No meu cupinzeiro, eu sou a rainha.
- Como vim parar aqui?
- Os cupins trabalhadores responsáveis em me alimentar
trouxeram você.
- O que? Está me dizendo que vou virar seu alimento?
- Isso mesmo.
- Não pode ser!
- Como não pode ser? Se você destruiu todo o alimento
que estávamos nos alimentando.
- Mas vocês destruíram meu guarda roupa e meus livros.
- Não me interessa você agora é meu alimento...
- Espera... Espera!
- Espera o que? Para que?
- Espera vocês não podem me comer...
- O Jeremias! O que se passa com você? Quem vai te
comer, homem?
- O que?
- Calma Jeremias.
- O que foi? Onde está a rainha do cupinzeiro?
- Que rainha, meu! Ta louco é?
- Vai ver que a batida soltou os parafusos da cabeça
dele – disse um menino ao lado da cama.
- Não fale assim com seu pai, menino – respondeu a
mulher.
- Maria, o que aconteceu? Eu estava falando com a
rainha do cupinzeiro que me queria comer.
- Eu não disse. Soltou os parafusos.
- Fique quieto, menino. Jeremias, a porta do guarda
roupa caiu em cima de você. Felizmente não aconteceu nada, você só desmaio.
- Então não tem rainha nenhuma?
- Não tem. Levanta, vai tomar um banho e venha
almoçar.
Assim que mãe e filho saíram do quarto, Jeremias
sentou na cama colocando os pés no chão. Ressabiado, calçou o chinelo e olhando
para os lados, saiu do quarto fechando a porta devagar com medo de que algum
inseto o estivesse seguindo. O que ele não viu foram dois olhinhos brilhando no
canto do guarda roupa que faltava desmontar.
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