segunda-feira, 21 de junho de 2021

Contos surrealistas 45

                                 Sua majestade.

                                 O sábado, na opinião de Jeremias estava um inferno. Escaldante torrando miolos até de asfalto. Suado sentia as gotas de suor escorrendo pelas costas queimando a pele nua. Estava mais de duas horas retirando os restos do guarda roupa. Mobília que resistiu trinta anos, talvez até quarenta e, agora, por causa dos miseráveis cupins estava em pedaços. Silenciosos foram comendo papel e madeira na ânsia insaciável em progredir.

Tudo começou com uma trilha na parede branca, saindo da caixa de tomada rente ao rodapé. Quando Jeremias abriu a caixa e retirou o espelho, um enxame de cupim voador invadiu o quarto. Atordoado, Jeremias caiu sentado ao ver a nuvem sobre a sua cabeça. Foi então que lembrou, ao procurar embaixo da pia, que não tinha veneno, mesmo assim espirrou SBP na esperança de matá-los. O que não adiantou nada, apenas deixou os insetos mais alvoroçados, mais irritados. Nisso sentiu uma picada no pé, logo em seguida outra no ombro e, uma terceira no peito. Uma tontura tomou conta dele fazendo-o cair desmaiado.

Aos poucos foi abrindo os olhos. Não distinguia as formas esquisitas a sua frente. Ouviu um chiado, não soube como definir, mas entendeu o som, ou melhor, dizendo, as palavras contidas no chiado:

- Apesar de que a morte é só o começo, posso dizer que você não está morto.

- Não estou morto? Então onde estou?

- No meu cupinzeiro, eu sou a rainha.

- Como vim parar aqui?

- Os cupins trabalhadores responsáveis em me alimentar trouxeram você.

- O que? Está me dizendo que vou virar seu alimento?

- Isso mesmo.

- Não pode ser!

- Como não pode ser? Se você destruiu todo o alimento que estávamos nos alimentando.

- Mas vocês destruíram meu guarda roupa e meus livros.

- Não me interessa você agora é meu alimento...

- Espera... Espera!

- Espera o que? Para que?

- Espera vocês não podem me comer...

- O Jeremias! O que se passa com você? Quem vai te comer, homem?

- O que?

- Calma Jeremias.

- O que foi? Onde está a rainha do cupinzeiro?

- Que rainha, meu! Ta louco é?

- Vai ver que a batida soltou os parafusos da cabeça dele – disse um menino ao lado da cama.

- Não fale assim com seu pai, menino – respondeu a mulher.

- Maria, o que aconteceu? Eu estava falando com a rainha do cupinzeiro que me queria comer.

- Eu não disse. Soltou os parafusos.

- Fique quieto, menino. Jeremias, a porta do guarda roupa caiu em cima de você. Felizmente não aconteceu nada, você só desmaio.

- Então não tem rainha nenhuma?

- Não tem. Levanta, vai tomar um banho e venha almoçar.

Assim que mãe e filho saíram do quarto, Jeremias sentou na cama colocando os pés no chão. Ressabiado, calçou o chinelo e olhando para os lados, saiu do quarto fechando a porta devagar com medo de que algum inseto o estivesse seguindo. O que ele não viu foram dois olhinhos brilhando no canto do guarda roupa que faltava desmontar.

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