quarta-feira, 7 de julho de 2021

Contos surrealistas 37

                                 Conspiração

 

A trama apontava várias evidências onde os caminhos, curtos ou longos, eram interpretados cada um a sua maneira, além do que, seguia quem quisesse, não havia obrigação. Por isso, a ênfase foi dada na livre escolha. E por causa dessa livre escolha, era o que achava, caminhava agora por uma estrada poeirenta, cheia de buracos, que o obrigava desviar, sendo que às vezes saia da estrada.

- Que inferno!

O sol do meio dia batia na capota do carro incansavelmente. Não havia nada nem à direita, nem à esquerda e, também nem à frente, apenas a estrada poeirenta, reta, rumo ao infinito. Odorico desconfiava, desconfiava não, tinha certeza, fora envolvido na conspiração sutilmente, discutindo os prós e os contras, opinando sobre isto e aquilo, quando percebeu, estava envolvido. Como fora panaca! Agora era seguir as instruções e, talvez, se for inteligente, usando a astúcia, quem sabe conseguiria dar a volta por cima e pegar todos de surpresa. Encheu-se de otimismo. Sorriu e seu olhar se perdeu no infinito da esperança enquanto mudava a marcha do carro e, sem se importar, saiu mais uma vez da estrada para voltar logo em seguida.

Abriu a mochila térmica e pegou três comprimidos e engoliu. O sabor áspero adocicado das pílulas desceu arranhando a garganta. A provisão de água acabara há muito tempo. Era urgente chegar ao infinito logo. Não queria morrer sedento. Acelerou o carro. Ouviu o motor engasgar por uma ou duas vezes. O ponteiro marcava pouco combustível. Que merda! Foi de propósito, foi de propósito, colocaram pouco combustível de propósito piscou seus olhos que o olhavam no espelho retrovisor. De propósito...

Uma comichão persistente o incomodava. Uma coceira irritante no nariz. Queria mexer o braço e não conseguia. Apenas a respiração levantava uma tênue poeira. Tinha caminhando por um bom tempo quando as forças se esgotaram e, como caiu ficou, de cara na estrada. Não se ouvia nada, um silêncio oprimido queimava suas costas. Apenas a mente delirava:

- Foi de propósito...

Até que nem mais se ouvia o delírio da mente.

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