Cheirava a cigarro, café e álcool. Fedia, isso sim. Fedia o suor do passado que no badalar das vinte e quatro horas, anunciou a morte do velho e anunciou o novo que nascia. Ao longe pipocaram estrondos de chuvas de pratas coloridos na imensidão do céu despejando chuva que, apesar da pouca intensidade, molhou os ousados que saiam para ver a queima de fogos. Ele fedia. Fedia a velho tempo enterrado no brilho dos rojões em festejos de que haverá, mais uma vez, mudança na vida. A vida não muda, aliás, nada muda o que muda é a intensidade de cada um a encarar seu destino. E o dele, era estar ali suportando o fedor de cigarro, café e álcool. Perambulava do sofá para a cadeira de vime e da cadeira de vime para o sofá, os olhos vidrados no além-desconcertante, com o copo de champanhe brindando a morte nos gritos surdos dos fogos. Brindava numa voz enrolada, numa absurda voz, poderia até se dizer, ridícula entoando sempre a mesma canção:
- Feliz ano velho...
E disso não saia, de
enquanto em enquanto, berrando na sala, na cozinha, na sacada, na rua:
- Feliz ano velho...
Não ouviam mais a
voz embriagada dele pelo álcool da satisfação de se sentir inteiro e feliz. No
inicio, apenas falava, depois com a empolgação, começou a cantar, e finalmente,
aos berros expunha o ridículo de ser ou de se estar alegre. Assim festejou a
passagem do ano novo.
- Feliz ano velho...
E deitou a alma cansada nos braços da madrugada.
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