quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Contos surrealistas 18

O apartamento.

              Para os amigos maionésicos da OE

              Para o Mau

                 E especialmente para Caroline e Michel


Elli estava no apartamento há mais de duas horas. Fizera o trajeto normal, sem maiores problemas. Disseram para ele:

- Olhe, você vai lá e fica esperando o estucador que ele vai quebrar esse canto da parede. Ta vendo, veja aqui na planta.

E Elli viu os riscos e anotações, o que deveria e o que não deveria ser feito.

Quando o indicaram, pensou:

- Caralho, vão me tirar do sossego.

Em outras palavras, mais uma vez a rotina estava sendo quebrada. Não gostava disso. E daí se Elli reclamava de estar sempre fazendo a mesma coisa, que nada lhe acontecia, e quando acontecia reclamava do mesmo jeito? É que ninguém o compreendia. Toda vez que precisava fazer algo novo, ele fica tolhido, como se estivesse amarado, a mente se agita em torvelinho entre o certo e o errado, o que fazer e o não fazer alimentando a insegurança que, por mais que procurava não demonstrar, ficava evidente.   

- Ta bem, eu vou lá, pode deixar.

E veio. Pegou o ônibus como lhe indicaram, subiu no décimo quinto andar, abriu a porta e recebeu o cheiro de novo, fresco, recente, cimento e poeira. O apartamento dava a impressão de aconchegante talvez com os móveis a impressão possa ser outra, evidentemente.

Não tendo onde se aboletar sentou no chão apoiando as costas na parede da sala. Abriu o livro Noves Histórias, de L. D. Salinger e se enfurnou na vida das duas amigas tenistas. Estava na sala com Ginnie e Franklin quando notou a mancha, quer dizer, tinha percebido ao entrar, uma pequena mancha, só que agora parecia maior. Continuou a leitura. Depois de duas linhas, achou-se impossibilitado em continuar. Sentia um cheiro forte de maionese. Vinha da mancha que agora parecia ter se espalhado por todo o chão da sala. Passou o dedo, aproximou do nariz, deu uma lambida. Gosto de maionese!

- Pena não ter pão, faria um bom sanduíche.

Nisso bateram à porta. Decepcionou-se, não era o estucador e, sim, Dona Zenaide, moradora do apartamento de baixo reclamando que a maionese estava pingando na sala. Dona Zenaide, tinha o cabelo pintado de verde com manchas brancas. Por momentos não conseguiu desviar a vista diante daquela excentricidade. Notou o olhar espantado quando tentou explicar que ele não era pastor, que Pastor era só no nome: Pastor Elli. Por fim, depois de várias explicações parece que Dona Zenaide acreditou. E quando falou que o apartamento estava vazio, que o genro estava mobiliando, ficou estarrecida, pois não sabia que ainda havia apartamento vazio, pensou que todos já estavam ocupados.

E mais estarrecida ficou, até incrédula quando Pastor Elli mostrou a mancha, agora enorme, tomando quase a sala toda. De boca aberta, o queixo batendo no peito, Dona Zenaide gaguejou um deus nos acuda, e com a voz alterada, disse que aquilo era o fim do mundo, estava parecendo o filme A Bolha assassina que comia todo mundo, e lembrou quase berrando, meus filhos estão lá embaixo e, desceu as escadas aos tropeços.

Pastor Elli parado entre a porta e o corredor indeciso não sabia o que fazer se descia para chamar alguém ou tentava limpar a poça, pois agora estava se tornando uma poça assassina. Poça assassina deu risada, quem diria! Nisso surgiu uma mosca e pousou perto da poça. O que aconteceu em seguida o deixou alguns segundo sem respirar. Dois braços pequenos saíram da maionese puxando a mosca para dentro do liquido branco. Engoliu seco. Fechou a porta e saiu.

Encontrou o zelador tratando de assuntos relacionados à sujeira da piscina. Depois de tanta explicação conseguiu com que Seu Zé subisse para comprovar o que ele lhe dizia. O zelador, um senhor baixinho, meio gordo, voz rouca, ao ver a mancha de maionese, deu meia volta deixando Elli que nem bobo a porta do apartamento. Instantes depois, surge Seu Zé com balde, pano, rodo e vassoura, gritando ríspido que aquilo não deveria acontecer, que ele era uma pessoa irresponsável, como fora acontecer, será que ele não sabia que o apartamento não tem estuque, que provavelmente estaria pingando no apartamento debaixo e et cetera e tal.

E enquanto falava, melhor dizendo, resmungava pegou o rodo e o que aconteceu logo em seguida, fez com que ele e o Pastor Elli dessem um passo atrás. Simplesmente o rodo foi tragado pela maionese. Só o cabo de madeira é que ficou nas mãos do zelador. O pano e a vassoura tiveram o mesmo fim. Então o que Dona Zenaide dissera era verdade. Tratava-se de uma maionese assassina. Ao dizer isso, Pastor Elli e Seu Zé desceram correndo as escadas e foram encontrar Dona Zenaide e os filhos em estado de choque. Assim que se refizeram, que puderam falar, contaram que a mancha assassina engolira o pequeno gato que se pusera a lamber a maionese.

Vamos, Elli, disse Seu Zé enquanto subiam as escadas, precisamos parar com aquela coisa. Mas como? Jogaram água, não adiantou nada. A mancha de maionese engoliu a água e estalou a língua como se estivesse tomando refrigerante. Por sorte seu avanço era lento, mais lento que o andar de tartaruga. Jogaram gasolina, atearam fogo, nada. Jogaram ácido, nada também. Álcool, também não resolveu. Não sabiam mais o que fazer.

Estava Seu Zé encostado a parede ao lado da porta, desanimado, e Elli em frente a ele com a cara de que nada estava acontecendo, quando do elevador saiu Dona Soberba sobrecarregada de embrulhos. Solicito, o zelador se prontificou a ajudá-la, no entanto, ao pegar o saco de sal que Dona Soberba passava para as mãos dele, caiu e o saco de plástico estourou esparramando sal para todos os lados.

Foi então que a salvação pulou aos olhos, primeiro do zelador e, depois de Elli. O sal, disseram quase ao mesmo tempo. É que um pouco do sal espirrou sobre a maionese fazendo com que ela se dissolvesse como se fosse uma lesma. Encheram o balde de água com um saco de sal e jogaram na maionese assassina. Um cheiro de queimado invadiu o apartamento junto com uma camada de fumaça. Foram necessários três baldes de água com sal, limparam a sala toda, verificaram todos os cantos. Não sobrou nenhum pingo de maionese para contar história.

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