O apartamento.
Para os amigos maionésicos da OE
Para o Mau
E especialmente para Caroline e Michel
Elli estava no apartamento há mais de duas horas. Fizera o trajeto normal, sem maiores problemas. Disseram para ele:
- Olhe, você vai lá e fica esperando o estucador que
ele vai quebrar esse canto da parede. Ta vendo, veja aqui na planta.
E Elli viu os riscos e anotações, o que deveria e o
que não deveria ser feito.
Quando o indicaram, pensou:
- Caralho, vão me tirar do sossego.
Em outras palavras, mais uma vez a rotina estava sendo
quebrada. Não gostava disso. E daí se Elli reclamava de estar sempre fazendo a
mesma coisa, que nada lhe acontecia, e quando acontecia reclamava do mesmo
jeito? É que ninguém o compreendia. Toda vez que precisava fazer algo novo, ele
fica tolhido, como se estivesse amarado, a mente se agita em torvelinho entre o
certo e o errado, o que fazer e o não fazer alimentando a insegurança que, por
mais que procurava não demonstrar, ficava evidente.
- Ta bem, eu vou lá, pode deixar.
E veio. Pegou o ônibus como lhe indicaram, subiu no
décimo quinto andar, abriu a porta e recebeu o cheiro de novo, fresco, recente,
cimento e poeira. O apartamento dava a impressão de aconchegante talvez com os
móveis a impressão possa ser outra, evidentemente.
Não tendo onde se aboletar sentou no chão apoiando as
costas na parede da sala. Abriu o livro Noves Histórias, de L. D. Salinger e se
enfurnou na vida das duas amigas tenistas. Estava na sala com Ginnie e Franklin
quando notou a mancha, quer dizer, tinha percebido ao entrar, uma pequena
mancha, só que agora parecia maior. Continuou a leitura. Depois de duas linhas,
achou-se impossibilitado em continuar. Sentia um cheiro forte de maionese. Vinha
da mancha que agora parecia ter se espalhado por todo o chão da sala. Passou o
dedo, aproximou do nariz, deu uma lambida. Gosto de maionese!
- Pena não ter pão, faria um bom sanduíche.
Nisso bateram à porta. Decepcionou-se, não era o
estucador e, sim, Dona Zenaide, moradora do apartamento de baixo reclamando que
a maionese estava pingando na sala. Dona Zenaide, tinha o cabelo pintado de
verde com manchas brancas. Por momentos não conseguiu desviar a vista diante
daquela excentricidade. Notou o olhar espantado quando tentou explicar que ele não
era pastor, que Pastor era só no nome: Pastor Elli. Por fim, depois de várias
explicações parece que Dona Zenaide acreditou. E quando falou que o apartamento
estava vazio, que o genro estava mobiliando, ficou estarrecida, pois não sabia
que ainda havia apartamento vazio, pensou que todos já estavam ocupados.
E mais estarrecida ficou, até incrédula quando Pastor
Elli mostrou a mancha, agora enorme, tomando quase a sala toda. De boca aberta,
o queixo batendo no peito, Dona Zenaide gaguejou um deus nos acuda, e com a voz
alterada, disse que aquilo era o fim do mundo, estava parecendo o filme A Bolha
assassina que comia todo mundo, e lembrou quase berrando, meus filhos estão lá
embaixo e, desceu as escadas aos tropeços.
Pastor Elli parado entre a porta e o corredor indeciso
não sabia o que fazer se descia para chamar alguém ou tentava limpar a poça,
pois agora estava se tornando uma poça assassina. Poça assassina deu risada,
quem diria! Nisso surgiu uma mosca e pousou perto da poça. O que aconteceu em
seguida o deixou alguns segundo sem respirar. Dois braços pequenos saíram da
maionese puxando a mosca para dentro do liquido branco. Engoliu seco. Fechou a
porta e saiu.
Encontrou o zelador tratando de assuntos relacionados
à sujeira da piscina. Depois de tanta explicação conseguiu com que Seu Zé
subisse para comprovar o que ele lhe dizia. O zelador, um senhor baixinho, meio
gordo, voz rouca, ao ver a mancha de maionese, deu meia volta deixando Elli que
nem bobo a porta do apartamento. Instantes depois, surge Seu Zé com balde,
pano, rodo e vassoura, gritando ríspido que aquilo não deveria acontecer, que
ele era uma pessoa irresponsável, como fora acontecer, será que ele não sabia
que o apartamento não tem estuque, que provavelmente estaria pingando no
apartamento debaixo e et cetera e tal.
E enquanto falava, melhor dizendo, resmungava pegou o
rodo e o que aconteceu logo em seguida, fez com que ele e o Pastor Elli dessem
um passo atrás. Simplesmente o rodo foi tragado pela maionese. Só o cabo de
madeira é que ficou nas mãos do zelador. O pano e a vassoura tiveram o mesmo
fim. Então o que Dona Zenaide dissera era verdade. Tratava-se de uma maionese
assassina. Ao dizer isso, Pastor Elli e Seu Zé desceram correndo as escadas e
foram encontrar Dona Zenaide e os filhos em estado de choque. Assim que se
refizeram, que puderam falar, contaram que a mancha assassina engolira o
pequeno gato que se pusera a lamber a maionese.
Vamos, Elli, disse Seu Zé enquanto subiam as escadas,
precisamos parar com aquela coisa. Mas como? Jogaram água, não adiantou nada. A
mancha de maionese engoliu a água e estalou a língua como se estivesse tomando
refrigerante. Por sorte seu avanço era lento, mais lento que o andar de
tartaruga. Jogaram gasolina, atearam fogo, nada. Jogaram ácido, nada também.
Álcool, também não resolveu. Não sabiam mais o que fazer.
Estava Seu Zé encostado a parede ao lado da porta,
desanimado, e Elli em frente a ele com a cara de que nada estava acontecendo, quando
do elevador saiu Dona Soberba sobrecarregada de embrulhos. Solicito, o zelador
se prontificou a ajudá-la, no entanto, ao pegar o saco de sal que Dona Soberba
passava para as mãos dele, caiu e o saco de plástico estourou esparramando sal
para todos os lados.
Foi então que a salvação pulou aos olhos, primeiro do zelador e, depois de Elli. O sal, disseram quase ao mesmo tempo. É que um pouco do sal espirrou sobre a maionese fazendo com que ela se dissolvesse como se fosse uma lesma. Encheram o balde de água com um saco de sal e jogaram na maionese assassina. Um cheiro de queimado invadiu o apartamento junto com uma camada de fumaça. Foram necessários três baldes de água com sal, limparam a sala toda, verificaram todos os cantos. Não sobrou nenhum pingo de maionese para contar história.
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