domingo, 10 de outubro de 2021

Contos surrealistas 20

                                 Berenice

 

Depois de certa indecisão, Elli voltou a se preocupar com o livro sobre as pernas. Interrompera a leitura para com a barra da camisa passar com cuidado nas duas lentes até se certificar que estavam limpas. Após essa meticulosa operação, colocou os óculos e voltou sua atenção a leitura.

Assim ficou por mais de duas horas ausente ao que ocorria a sua volta. Havia pequenos intervalos ao qual se dedicava ao cigarro de sua preferência saboreando com uma longa tragada para em seguida, lançar no ambiente, grossas nuvens de fumaça.

Praticava esse hábito pelo menos uma vez por semana quando Berenice vinha por ordem ao apartamento. Apesar da altura em que estava décimo segundo andar e, estando à janela aberta, ouvia a movimentação da vida com suas buzinas, sirenes, freadas, serras, gritos metálicos e, uma vez ou outra, algumas vozes que se sobressaiam, o que não atrapalhava a leitura.

Elli precisava ouvir o pulsar desconhecido da rua, só assim se entregava por inteiro a leitura.

- Boa noite, Seu Elli.

- Boa noite, Berenice.

Logo que a empregada saiu da sala, fechou o livro, dirigiu-se ao barzinho no canto esquerdo do corredor, e preparou uma boa dose longa de uísque. Em seguida acendeu o cigarro e, bebericando e fumando contemplou a cidade aos seus pés.

Isso lhe dava um excitamento inimaginável só de pensar que toda aquela imensidão, até onde sua visão pudesse alcançar, estivesse realmente aos seus pés. Cronometricamente meia hora depois de saboreado o uísque e fumando o último cigarro da noite, entrou no quarto de Berenice, e nu, deitou ao lado da empregada.

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