sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Contos surrealistas 21

                             San27.

O tempo estava em seus olhos num castanho claro luzindo mais para um azul esbranquiçado quando entrou no transporte que o levaria para o planeta artificial.

Tinha um pequeno medo com qualquer tipo de condução que se elevasse, mesmo que fossem poucos centímetros do solo. Com cara e coragem, como dizia os antigos, pisou nos degraus da nave e procurou o lugar indicado no bilhete holográfico que a moça mecanicamente mostrou a ele. A mecanicidade se proliferava num absurdo demasiado. Não era afeito às modernidades fúteis, às novas tecnologias que logo eram colocadas de lado, tão logo passasse a moda. Sentou, fechou o cinto e não pensou mais, aliás, era costume, se preocupar com as coisas só naquele momento, logo em seguida a mente o puxava para outras ocupando o lugar da antiga.

Como agora. Pela primeira vez estava indo ao planeta artificial. Seu coração tremia no pulsar desnorteado. A adrenalina agitava as veias do corpo deixando-o excitado. O planeta artificial fora criado para se passar dias e dias sem fazer nada, como férias, além do que não existia mais lugar na Terra para o lazer. Todo o espaço existente fora ocupado pela longevidade. O ser humano não morria mais aos setenta, oitenta ou mesmo cem anos. A morte fora prolongada, o homem com sua maravilhosa máquina viviam até duzentos anos e com isso a população aumentou tanto que as cidades cresceram a ponto de se emendarem uma as outras. E o espaço tempo não existia mais, os transportes venciam as distâncias rapidamente sendo possível ir de um lugar a outro em menos de cinco minutos.

Corria um boato assustador. Quem ia para o planeta artificial não voltava mais, isto porque, não era mais necessitado na Terra. San27 nunca deu atenção a boatos, sabia que tinha dois dias, um final de semana, era seu tempo, tivera durante dois rápidos meses contato via imagem holográfica com Ana63, e estava indo pela primeira vez para conhecê-la. Ana63 fora designada para coordenar os robôs que trabalhavam na manutenção assim que o planeta foi criado. Fora na primeira leva de humanos, ela e mais alguns. Talvez ela fosse mais uma não necessária na Terra, quem poderia dizer? San27 não acreditava nisso, pois sabia que ela trabalhava e não era mais uma desocupada.

Ao atravessar a rampa que ligava a nave ao prédio grande e branco onde esperava que Ana63 o aguardava, levava na mochila em áudio holográfico a música que achara nos baús escondido na garagem da sua casa. Estava gravada naqueles disquinhos brancos que os antepassados chamavam de cd, na extinta língua inglesa. Paciencioso como sempre transpôs para a língua astorellica cujo título era: “Somewhere time”, a qual ouvia toda vez que holograficamente falava com Ana63. 

O coração acelerou o ritmo ao constatar como estava bonita, um pouco pálida e tremula, deveria ser a emoção do encontro, pensou. Não deu atenção, queria aproveitar o máximo os dois dias, nem tocou no assunto, ressabiado guardou para si as considerações. Assim curtiu que, como um cicerone, ela mostrou todos os lugares e as funções que os robôs executavam. À noite saíram a passeios interessantes e diferentes, coisa que na Terra não se fazia mais. Dois dias rápidos e curtos, mas bem aproveitáveis, disse para ela. Ana63 apenas sorriu de leve, não disse nada.

No dia seguinte percebeu que Ana63 não conseguia esconder a palidez e nem os tremores, como se tivesse algo para lhe contar e não tinha coragem. Já estava atrasado, quando ela disse:

- Não precisa correr.

- Por que, respondeu apreensivo.

- Seu tempo na Terra acabou.

- Quer dizer que é verdade?

- Sim, é verdade, você não é mais necessário na Terra.

Sem dizer nada, deixou-se cair no banco do jardim artificial enquanto ouvia a canção: Em algum lugar o tempo não é o mesmo que você conhece...

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