Bem que lhe disseram. Não quis acreditar, isto é, não deu importância. Agora estava ali todo encapotado, de óculos, luvas, parecendo um aborígine de algum lugar exótico. O vento interrupto corta as ruas como afiada faca numa velocidade constante sem alteração. Com dificuldade fechou a porta. Assim mesmo uma lufada varreu o chão da sala sujando de poeira e derrubando os enfeites da estante. Cansado se jogou na poltrona. Inconsciente ouviu um longo suspiro sair do peito arquejante. Tirou a bota que pesava uma tonalidade, tarefa que levou uns dez minutos. A bota de cadarço resistente e sola grossa para manter seu corpo preso ao chão bateu no assoalho num barulho duro. O capacete pesado foi deixado na mesa de centro já atulhado de cacarecos. O grosso capote dependurou no cabide no canto da sala. Só depois, quando a ultima peça do desconfortável protetor foi retirado do corpo, é que se deixou realmente cair o corpo na poltrona. Por uns minutos de silêncio prendeu a respiração como forma de exercício de relaxamento. Passado os minutos necessários, levantou-se da poltrona e na cozinha tomou um bom gole de suco.
Nisso olhou para o cartão, precisava buscar sua cota
de alimentação, mas não agora, disse para sim mesmo. Agora vou descansar
assistindo algo na televisão. Assim fez e assim feito caiu num profundo vagar
de pensamentos sem prestar atenção ao aparelho berrando comerciais que não lhe
interessava. Lá estava seu ex-chefe vociferando ao comunicar-lhe a
transferência. Na mão direita um pacote esquisito de sabão em pó, gritando
palavras que lhe feriam os ouvidos. Não eram palavras duras e nem obscenas, mas
calavam fundo nele, pois dizia que não podia mais permanecer naquele comercial,
teria que procurar outro.
Acordou da sonolência ao som da campainha do telefone.
Enquanto atendia olhou para a televisão. Um sujeito todo desengonçado fazia a
apologia do sabão num comercial todo kitsch. Sorriu enquanto ouvia a explicação
do Edifício de Alimentação. Teria que pegar a sua cota nesse instante.
Portanto, vestiu novamente a parafernália protetora e saiu no vento cortante.
Era com dificuldade precisa que movimentava um pé após
o outro lentamente. O vento forte queria levantar seu corpo que, preso pela
bota resistente prendia-o ao chão. Avançava devagar não tinha outra maneira.
Que merda de lugar, gritou alvoroçado sabendo que ninguém o ouviria mesmo.
Contra a sua vontade estava nesse lugar horrível. Sua função era proteger a
grande abóboda que envolvia a cidade da areia e do vento. Por duas horas
percorria um grande trecho que para ele, parecia muro infinito, sumia entre as
nuvens. Sua obrigação era ficar de olho aberto verificando trincas, furos e
objetos que ficava preso ao muro. Isso durante intermináveis duas horas por dia
ou noite. Caso surgisse uma trinca ou um furo por pequeno que fosse, teria que
avisar no setor de comunicações que ficava ao lado do Edifício de Alimentação.
- Orloc quiche dezenove.
- Por favor, introduza seu cartão.
A portinhola do quiche abriu. Pegou o pacote.
- Por favor, retire seu cartão.
Orloc retirou o cartão, a portinhola desceu fechando o
quiche.
Vamos enfrentar outra vez o caminho, disse em voz alta
sem esperar que alguém respondesse ao descer os longos degraus do edifício.
Orloc andava de um lado para outro. De hora em hora,
com o potente canhão vasculhava, iluminando de cima em baixo, a grande parede.
Apesar da parafernália protetora, havia algo insuspeito que o deixava inquieto.
Não queria sucumbir aos pensamentos, mas jurava que atrás da parede tinha vida.
Desde que passou a exercer essa função, notou... Bom pareceu a ele que existia
gente. Não lhe deram explicação nenhuma do porque e nem do que e, muito menos
dele estar ali numa função que, para ele, era insuportável. A ordem era
notificar irregularidades, principalmente na parte que lhe coubera ficar de
guarda. Olhos bem abertos, dissera seu superior. E assim Orloc, pensava, faço o
melhor que posso. O que lhe deixava tão preocupado, a ponto de perder o sono,
foi o fato ocorrido semanas atrás.
Ao chegar ao limite em que deveria voltar, ao dar dois
passos à frente, lançando o pé direito e depois forçando consequentemente o pé
esquerdo para que o corpo, numa torção, completasse o giro, foi que notou algo
brilhoso na parede. Um ponto, a princípio não dera importância, mas prestando
mais atenção reparou que não era um ponto qualquer. Era um círculo meio que
irregular como se rapassem o escuro da parede, ou talvez, uma pedra de raspão
batera e lascou a... Tinta? A grande parede era pintada? Não ousou responder e,
muito menos, averiguar mais nitidamente se era ou não pintada. Apenas aproximou
o olho esquerdo e, o que viu o deixou estarrecido.
Dois jovens parecendo atordoados como se escondesse ou
temesse algo. De repente um olho se sobressaiu assustando-o. A mesma coisa deve
ter acontecido com os jovens, pois um deles saiu correndo seguido pelo outro.
Chegando ao que parecia cruzamento de rua, o que seguia o primeiro, parou por
uns instantes olhando para ele. Orloc ficou vários minutos ainda olhando e, via
somente o que lhe parecia ser uma rua mais ninguém. Por fim desistiu, pegou um
pouco de areia e jogou na falha.
Deveria
notificar as autoridades, mas não o fez. Talvez, quisesse e até pensava em ver ainda
os dois jovens e, então, constataria a vida do outro lado. Nos outros dias,
sempre que passava pelo local, limpava um pouco e espiava. Tinha noção, até a
certeza de que no futuro iria encontrar os dois jovens.
Em frente ao espelho, fazendo a barba, vinha à mente o
susto dos jovens. Notou que era uma garota e um rapaz. O que faziam daquele
lado? O que teria atrás da grande parede? Por que estava, todos os dias,
enfrentando uma ininterrupta tempestade? Nisso, ouviu um som como se fosse
choro de criança. E o som vinha do pacote de comida que pegara na Casa de
Alimentação.
Orloc odiava repetir. Evitava repetições de gestos, de
pensamento, de palavras, o que fazia hoje evitava fazer amanhã. Era trabalhoso,
difícil, esquisito, paranoico vamos dizer, no entanto sua característica era
essa. Pensando bem, fora transferido talvez por isso. O serviço não sendo muito
pesado e solitário, não dependia de outros, como o anterior, podia extravasar
sua excentricidade à vontade sem irritar ninguém. Tinha certeza que o motivo
fora esse. Não se sentia magoado, sabia-se excêntrico, o psicanalista provara
para ele e dissera até, que poderia ter alguma complicação profissional com
isso. E tivera. A prova estava na transferência.
Corria o boato que a comida era feto, bebês prematuros
que não vingaram ou, nasceram com defeito físico. Recebia da Casa da
Alimentação pedaços de carne sem osso, às vezes posta suculenta que fervida na
mais alta temperatura, temperada ao gosto, ficava saborosa. Não tinha como
saber se era ou não feto, pois sempre comeu aquele carne, com isso, a pele
ficou misturada com cinza e branco e, devido à utilização da roupa protetora,
pesada, o corpo se adaptou a situação, seus dedos, mãos, braços e pernas,
ganhou uma musculatura óssea um pouco deformada, o tronco se alargou e a
cabeça, devido ao capacete, se atrofiou achatando nariz, orelha numa
uniformização inteligente. Reconhecia ao se olhar no espelho, como ele era
assustador, porém acostumado à transformação lenta não houve chance de perceber
no que se tornara. Um monstro, dissera à imagem que via no espelho do banheiro.
Agora ouvia choro vindo do pacote que trouxera de manhã. O que será? Não atinava o que poderia ser. Virou o pacote de um lado para o outro. Continuava agora mais alto. O que deveria fazer? Devolver? Não, fariam um interrogatório infindável, até quem sabe, outra transferência? Não queria isso. Jogar o pacote em qualquer lugar, o que também era impossível, tinha o número com o qual era reconhecido na Casa de Alimentação. Para saber só abrindo, disse ao pegar a faca. Primeiro cortou o barbante dos lados. Depois na lentidão do momento, num gesto só, quase absoluto, cortou o outro. Retirou a folha que envolvia deixando a mostra o logotipo da Casa de Alimentação. Em seguida, puxou as presilhas soltando os lados da caixa de papelão. E o que viu..., apenas dois olhos o envolveram numa luz azul de suave brilho...
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