quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 335

Ei. Psiu. Aqui



- Ei. Psiu. Aqui ó.

- O que?

- Aqui, olhe para baixo na borda do prato.

- O que? Você de novo?

- Por que de novo?

- Oras, por que. Não estava outro dia dançando na borda do prato como uma exibida?

- Ah! Você está falando da minha irmã.

- Irmã?

- É! Minha irmã...

- Ora veja só! Não sabia que arroz tem irmã.

- Tem sim.

- Estou delirando novamente.

- Não está. Tem arroz caseiro, arroz a grega, a arroz a mineira, arroz carreteiro, risoto, arroz de queijo, arroz caipira...

- Está bem.

- Então deve ter falado com a minha irmã, arroz branco. Ela é exibida, não tem atrativos nenhum, por isso fica dançando na borda do prato.

- A é? E você o que é?

- Sou arroz a grega que você mais gosta.

- Uhm sabe até o meu gosto.

- Claro sempre pede filé de frango com arroz a grega.

- Estou ficando doido, não pode ser.

- Olha quero lhe dizer uma coisa.

- Arroz falando comigo, dá para imaginar?

- E por que não? Não tem aquele escritor alemão, como o nome dele, ah! Gunther Grass que falava com barata ou descascava cebola? Não sei.

- O autor do O Tambor.

- Isso mesmo.

- Oh livro chato.

- Então se ele falava com a barata ou descascava cebola, não sei, então por que você não pode falar com um arroz, e olha lá, arroz a grega.
- Deveria falar em grego, né, ahahahahaha!

- Engraçadinho, detesto piada americana.

- Ah! Até que foi uma boa piada.

- Bom quero dizer uma coisa para você.

- Ah É?

- É sim.

- E o que é?

- Você está apaixonado.

- Endoidei de vez. Um arroz insignificante falando que estou apaixonado.
- Está sim.

- E como sabe que estou apaixonado?

- Como sei não importa, o que importa é que eu sei e sei por quem você está apaixonado.

- Vamos encurtar o suspense e diga por quem então.

- Não posso.

- E por que não pode?

- Por que acabou o tempo do escritor.

- Acabou o tempo dele?

- É. Amanhã volto a falar com você.

- Está bem, amanhã neste mesmo bat local e bat horário.
- Certo. Só que você precisa pedir arroz a grega, não esqueça.

- Não esquecerei.

(Realmente acho que estou ficando louco preciso consultar um psiquiatra – disse a meia voz, saindo do restaurante.)

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