Pimenta
Pimenta. Sempre gostou de pimenta. Herdou o gosto do pai. O pai comia pimenta
com farinha e ainda arrotava em bom som a satisfação de ter comido uma boa
pimenta. Descendente de duas raças apreciadoras de comidas fortes, alemã pelo
lado materno e, italiana pelo lado paterno, não podia fugir a regra. Gostava
sim, não tanto como o pai, mas gostava. Uma comida apimentada na dose certa era
excelente. Assim não podia faltar no prato uma boa pimenta. Pena que os
restaurantes, não os de luxo, os chamados cincos estrelas, mas esses onde se
oferece comida rápida, em que não se pode ficar duas ou três horas saboreando a
comida numa boa conversa regado a vinho, não ofereciam boa pimenta. Esses
restaurantes, muitas vezes nem restaurantes são, se denominam restaurantes, mas
não passam de bares com uma estrutura que conseguem servir uma comida razoável.
O atendimento desses estabelecimentos é para o pessoal que tem somente uma hora
ou uma hora e meia para o almoço por isso está sempre cheio num vai e vem de
desesperados famintos preocupados financeiramente e profissionalmente. No fim
da vida, aos cinquenta ou sessentas anos, sofrerão as consequências dessa vida
paranoica de sobrevivência.
Estando com mais de trintas anos de serviço nos costados e, talvez uns vinte
anos na Avenida Paulista, não fugia a regra, aliás, não tinha como fugir, vivia
na correria como todos os que, como ele, estava naquele momento se alimentando
sofrivelmente nas poucas horas possíveis. E como todos, se servia desses
sofríveis restaurantes com nome de bares de segunda categoria. E como todos,
vivia na correria para passar o crachá na hora certa. Era igual como todos e ao
mesmo tempo diferente de todos. Não corria na mesma procedência, não se
desesperava com o horário, não se importava com a comida e muito menos com
restaurantes sofisticados, tendo uma comida razoável que matasse a fome para
ele era suficiente. Costumava dizer:
- Como para viver e não vivo para comer.
Portanto pouco se importava com o restaurante,
a comida sendo boa ou razoável, estava muito bom. E naquela terça-feira entrou
no restaurante de costume como sempre, sentou perto da parede, fez o pedido, e
enquanto esperava, picou a pimenta, duas, bem picadas, em seguida despejou
azeite, salgou um pouco e, passou a molhar o pão na pimenta e comer. No entanto
no primeiro naco, assim que os dentes entrou em contato com o pão, a ardência
da pimenta fez com que seus olhos se marejassem. Tomou dois goles de
refrigerante e, passou a comer o pão sem molhar na pimenta.
- Porra, meu! Essa pimenta é das boas, disse mentalmente.
Assim que o filé de frango com legumes e arroz foi depositado a sua frente,
passou para o prato uma boa quantidade de arroz e misturou bastante. Com o
garfo esparramou os grãos, depois juntou todos no meio, em seguida fez um monte
dividindo o prato em duas partes e, numa das partes colocou um pedaço de filé
de frango. Receoso passou a comer o arroz em garfadas pequenas, até que
percebeu a ardência diminuir, o que fez com que saboreasse a comida mais
lentamente.
Nunca mais achou uma pimenta como aquela.
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