sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.774(2022)

                           

            Satisfeito, estava se sentindo satisfeito, e isso se dava por ter tomado a decisão de não ter ido a noite de autografo ao qual fora convidado. Sabia que se fosse iria ficar deslocado num ambiente em que não era a sua praia, onde não tinha conhecidos, nesses lugares praticamente ficava sem jeito, sem saber o que fazer com as mãos, com os braços, para onde olhar, o que dizer, enfim perdido. Portanto não estava arrependido, quem se arrepende sofre duas vezes além de ser um fraco. Não tomara uma atitude presunçosa, sabia disso, e muito menos atrevida. Achava que fora uma atitude adulta, mesmo que pudesse parecer cômoda, que não quisesse sair de sua cômoda burguesia, não era nada disso, portanto estufou o peito confiante se alegrando por estar onde estava e vivo. Pensando dessa maneira, entrou no quarto, deitou-se nu e se enfiou por baixo do lençol sendo que minutos depois jogou de lado o amarfanhado lençol para ligar o ventilador por causa do calor. De nada adiantou, continuava rolando na insônia de um lado para o outro. Sem perceber os lábios se moveram num mantra sofrível, monótono, tediosamente vazio de som e conteúdo, até que conseguiu cair numa modorra imaginando-se nos braços de alguém que o levava ao paraíso dos prazeres inimagináveis. Deitado sem saber onde deliciava-se com doces beijos melosamente ásperos. Amedrontado, sacudiu a cabeça e com a mão empurrou com violência a cabeça do Timbó que se afastou ganindo por ser expulso do seu delicioso prazer em lamber a cara do dono. Resignando, levantou-se do chão, pois caíra sem saber da cama. Desligou o ventilador, embaixo do chuveiro deixou a água massagear o corpo, se enxugou, se vestiu, tomou café com leite acompanhado de torradas e, se preparou para se aventurar mais uma vez no dia que amanhecia esplendorosamente...

            É isso... ou, não é?

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