Quando se encontravam a discussão rolava solta. Era mais um diálogo acalorado quase sempre sem paixão, apenas discutiam por discutir. E aquele dia não foi diferente dos outros dias. Começaram falando do filme que estreara a pouco tempo e que fazia sucesso. Criticaram o diretor, os atores, a trilha sonora, a fotografia, o tema, muitos não gostaram por ser drama, tinha os que não gostavam de comédias, de terror, ficção cientifica, Hitchcock nem pensar, infantil, animação e muitos outros. De repente perguntaram a ele:
- E você, qual o tipo de filme que prefere?
Olhou para o pessoal que olhavam para ele, respondeu:
- Qualquer filme, desde que seja bom.
Um silêncio reinou entre eles, mas logo em seguida
esquecendo-o começaram a discussão novamente. Deu de ombros. Dali a instantes,
levantando-se disse:
- Bem pessoal, vou indo.
Ninguém lhe deu atenção. Jogou uma nota de cem em cima da mesa e saiu. Pegou o ônibus e quarenta minutos depois estava em casa. Ao enfiar a chave na fechadura e abrir a porta, previu que alguma coisa estava errada. Ouviu falatório, não entendia o que diziam. Devagar dirigiu-se ao som das vozes. Chegando à escada que descia ao porão, reparou que alguém assistia filme na televisão. E lá estava ele vendo um filme do Hitchcock em preto e branco e todo o ambiente estava em preto e branco também. E ele todo estirado na cama, com o corpo jogado meio para traz, deixando o dorso a mostra, numa posição passiva parecia dormir. Desceu o último degrau. Reparou que ele não ficou em preto e branco, continuava colorido, sua camiseta azul continuava azul, a calça jeans continuava azul jeans desbotada, seu cabelo preto continuava preto. Olhou as mãos continuava com a cor de pele de sempre. No entanto, ele na cama e todo o ambiente, cama, lençol, o pijama, a televisão, janelas, paredes, tudo era em preto e branco. Lentamente, aproximou-se, sentou-se na beirada da cama. Temeroso estendeu a mão, quase tocava o seu peito, quando ele abriu os olhos e uma luz ensurdecedora iluminou o quarto fazendo com que se unissem num só.
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