Jogou
a lata de cerveja vazia no lixo. Bom, é melhor dormir, disse a si mesmo com
vontade de escrever o conto guardado na mente. Até já tinha o tema. O seu
cabelo. Longo. Grisalho. Lindo. Bonito. Comprido até na cintura. Você com esse
cabelo comprido fica com cara de velho. E daí? Pouco me importo, foda-se. No
fim do ano pode trabalhar de Papai Noel. Que vá a merda Papai Noel. Que
inferno. Faço o que bem entender com o meu cabelo. Se magoava. No entanto
muitos o elogiavam. Um tempo atrás, mas muito atrás mesmo, um cabeleireiro não quis
cortar. É muito bonito, me recuso a cortar, ele disse. Isso aconteceu a muito
tempo, nem adulto era, estava na fase adolescente. Foi o tempo em que não
entendia das coisas dos mais velhos, em que devia apenas obedecer. O pai que
mandava e ele tinha de obedecer. Obedecia, mas um dia, já estava com barba e
outras coisas com o que os adolescentes se importavam, cortou o cabelo deixando
cheio nos lados e arredondado atrás. Nesse dia sentiu-se importante, já era
adulto, o pai nada falou, conheceu que não podia mais mandar no filho. E agora
aos sessentas anos quando lhe perguntavam o que passava no cabelo, respondia
nada, apenas sabonete. Não acreditavam. Mas, como! E era verdade, simples
assim. Apenas água e sabonete. Impossível! É verdade não uso mais nada,
respondia. E assim ele vinha fazendo, até que um dia lhe deu na veneta de usar
shampoo. Mas queria um bom. Perguntou aqui e ali, perguntou para diversos
cabelereiros, não lhe deram uma resposta adequada, uns diziam uma marca outros,
marcas diferentes, por fim decidiu por ele mesmo. Comprou o que achou melhor,
olhou o rotulo, as especificações, revigorante e fortalecedor, é esse mesmo
disse ao pegar o frasco da gondola. Seguiu com perfeição o recomendado nas
instruções atrás do frasco. Lavou duas vezes, enxaguou duas vezes também,
enxugou bem enxugado, passou a escova umas quinhentas vezes, e, depois de se
admirar no espelho do banheiro foi dormir satisfeito. No dia seguinte ao
acordar, constatou que tivera bom sono, era outro. A primeira coisa que fez se
postou a frente do espelho. Quando se viu refletido, sentiu um baque, o peito
se inflou, cambaleou e estatelado caiu no chão gelado. Ao ser socorrido ninguém
acreditava que aquele careca caído no chão gelado do banheiro um dia tivera um
lindo e longo cabelo.
É isso... ou, não é?
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