sábado, 27 de agosto de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.798(2022)

        

         Jogou a lata de cerveja vazia no lixo. Bom, é melhor dormir, disse a si mesmo com vontade de escrever o conto guardado na mente. Até já tinha o tema. O seu cabelo. Longo. Grisalho. Lindo. Bonito. Comprido até na cintura. Você com esse cabelo comprido fica com cara de velho. E daí? Pouco me importo, foda-se. No fim do ano pode trabalhar de Papai Noel. Que vá a merda Papai Noel. Que inferno. Faço o que bem entender com o meu cabelo. Se magoava. No entanto muitos o elogiavam. Um tempo atrás, mas muito atrás mesmo, um cabeleireiro não quis cortar. É muito bonito, me recuso a cortar, ele disse. Isso aconteceu a muito tempo, nem adulto era, estava na fase adolescente. Foi o tempo em que não entendia das coisas dos mais velhos, em que devia apenas obedecer. O pai que mandava e ele tinha de obedecer. Obedecia, mas um dia, já estava com barba e outras coisas com o que os adolescentes se importavam, cortou o cabelo deixando cheio nos lados e arredondado atrás. Nesse dia sentiu-se importante, já era adulto, o pai nada falou, conheceu que não podia mais mandar no filho. E agora aos sessentas anos quando lhe perguntavam o que passava no cabelo, respondia nada, apenas sabonete. Não acreditavam. Mas, como! E era verdade, simples assim. Apenas água e sabonete. Impossível! É verdade não uso mais nada, respondia. E assim ele vinha fazendo, até que um dia lhe deu na veneta de usar shampoo. Mas queria um bom. Perguntou aqui e ali, perguntou para diversos cabelereiros, não lhe deram uma resposta adequada, uns diziam uma marca outros, marcas diferentes, por fim decidiu por ele mesmo. Comprou o que achou melhor, olhou o rotulo, as especificações, revigorante e fortalecedor, é esse mesmo disse ao pegar o frasco da gondola. Seguiu com perfeição o recomendado nas instruções atrás do frasco. Lavou duas vezes, enxaguou duas vezes também, enxugou bem enxugado, passou a escova umas quinhentas vezes, e, depois de se admirar no espelho do banheiro foi dormir satisfeito. No dia seguinte ao acordar, constatou que tivera bom sono, era outro. A primeira coisa que fez se postou a frente do espelho. Quando se viu refletido, sentiu um baque, o peito se inflou, cambaleou e estatelado caiu no chão gelado. Ao ser socorrido ninguém acreditava que aquele careca caído no chão gelado do banheiro um dia tivera um lindo e longo cabelo.

         É isso... ou, não é?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...