O pensamento rasgava o silencio. O corpo na quietude da carne e os ossos se
debruçavam na inquietude das sombras colaborando para enriquecer as formas
difusas. Os olhos fixos no teto de madeira saboreavam a mancha escura de
abstrata ilusão fazendo o peito arfar num ritmo controlável. Pelos cantos dos
olhos, sem movê-los, distinguiu claramente o vai e vem das pessoas ao querer
solucionar algo que estava fora do seu alcance. Ouviu um soluçar de lágrimas
contidas. Em seguida um assuar de nariz entrecortado por soluços pequenos. Não
conseguia distinguir se era homem ou mulher, criança não era, tinha certeza.
Não tendo outra coisa a fazer, a não ser ficar deitado, num controlar a
respiração, numa rigidez absurda, apurou o ouvido em direção ao choro. Mesmo
assim, foi impossível notar a procedência. Momento lhe parecia homem outras
vezes, parecia mulher. Optou por mulher, pois homem é mais difícil cair no
choro, já a mulher por qualquer coisa abrem a boca, disse sorrindo sem mexer os
lábios. Gozado, sentiu-se sorrindo sem, no entanto sentir a boca se mexer.
Sonho. Será que estava sonhando? Como se sonhava sem estar propriamente
dormindo! O que não conseguia e, por várias vezes tentara sem êxito, se mexer,
isto é, os músculos, os nervos, a pele, a unha reagiam ao comando sem que ele
movesse sequer um milímetro que fosse do corpo. Rígido, foi que percebeu,
estava rígido. Como ficará desse jeito? Por que tinha a sensação de algo que já
fora, de algo predestinado a seguir adiante, de algo sem noção do que seja e
nem para onde irá? Um gosto de fuligem, madeira queimada, misturada a cinza
quente o envolvia por todos os lados. O pior é que a quentura da pele
tornava-se insuportável. A noção que lhe vinha à mente era de que queimava sem
dor, sem queimadura. Vivia o calor abrasador, mas esse calor abrasador não o
importunava, não o queimava, as chamas lambiam seu corpo intensamente, por
todos os lados, por todos os cantos e não sentia o calor. Fechou os olhos,
encarapitou-se no pensamento e rasgou o silencio.
Ao abrir os olhos, veio ao seu nariz um odor de cinza. Arrepiou-se, estava
totalmente coberto por cinzas escuras e brancas, com manchas marrons. Flutuava,
disso tinha certeza, flutuava os pés não alcançavam o solo, a terra, a areia.
Ouvia o marulhar das ondas sem que elas chegassem aos seus pés. O corpo se
desintegrara, pois a noção de corpo surgiu em pequenos pedaços de carne
esturricada, pequena envolta pelas cinzas. Deixou de formular perguntavas que
não lhe respondiam nada. Um pequeno calor ainda lhe aquecia. Sem saber se
horrorizado ou não, constatou, sua percepção não captava mais o todo, e, muito
menos as partes, tudo era um amontoado de cinza quente. Relaxou não se
preocupava com mais nada.
Foi então, que a água salgada o arrastou para as profundezas das ondas, sepultando o que ele um dia fora. Ao longe uma gaivota lançou seu trinado de fome. O sol se escondeu entre as nuvens e, na praia, uma figura ajoelhada, talvez, rezava uma oração à mãe natureza sem perceber a onda beijando seus joelhos.
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