terça-feira, 6 de setembro de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.801(2022)

                            

Segurava com as duas mãos acima da mesa, na altura dos olhos, o celular. Compenetrada prestava atenção nas figuras que rolavam pela telinha. Fissurada não prestava atenção ao que ocorria a sua volta. Muito menos nos barulhos de flauta, de oboé, de trompete, do piano, nem nas vozes que formavam o coral a entoar músicas em tom alto. O vai e vem de pessoas, crianças, senhoras, senhores, também não prestavam a atenção a ela. Sentada a mesa de tampo claro, o sol batendo as suas costas, volta e meia lançava a meia voz um: droga! E repetia: droga! Depois voltava a atenção ao que se passava na telinha. Assim, passou as quatro horas que tinha que passar. Sem canseira. Sem interrupção. Quando estava para chegar as cinco horas, ouviu-se um estrondo, as luzes se apagaram e ao mesmo tempo voltaram. E onde estava a menina segurando com as duas mãos, acima da mesa de tampo claro, na altura dos olhos o celular, estava apenas o celular na mesa de tampo claro. Ninguém viu porque ninguém prestava a atenção nela, uma menina apavorada, talvez gritando por socorro na tela pequena do celular que estava em cima da mesa de tampo claro.

          É isso... ou, não é?

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