Pavão misterioso
Chove. Pronunciava a palavra pausadamente olhando pela janela. Chove. Não
ousava sair. E porque deveria sair? Não queria passar vexame. Não conseguiu
desenvolver o protetor. Todos tinham o seu. Ele não. Tinha que usar
guarda-chuva, capa e galocha. E quando isso acontecia sentia-se envergonhado,
observado pelas pessoas como um parasita. Era um marginalizado por causa disso.
Desde que se conhecia como gente, nunca houve um dia sem chuva. Diziam os
antepassados que houve épocas de sol, de verão onde as pessoas podiam quase
andar nus. Se não fosse pelo protetor que foi desenvolvido a partir de uma
combinação genética e a natureza, descoberta por um cientista, o que
possibilitou todos se movimentar livremente, menos ele e, talvez, se não
houvesse o protetor o planeta estaria hoje desabitado.
Do quarto andar, a
massa humana locomovendo-se de um lado para o outro era insignificante, não
pertencia àquela caterva ignorante, sem um propósito, a não ser, viver seus
dias infindáveis. Enquanto eles viviam a eternidade absoluta, ele vivia o tempo
passando na carne, nas veias intumescidas, nos movimentos envelhecidos. Sentia
asco, horror, ódio por todos eles. Zumbis do progresso mesquinho e infinito.
Ninguém mais nascia.
Não havia mais nascimento. Não havia mais grávidas. O protetor, por uma razão
mal explicada, deixou as mulheres estéreis e os homens impotentes, por outro
lado, deu a eles a fonte da juventude, não envelheciam, não morriam. O que ele
via pela janela do quarto andar é o que seria daqui a mil anos. Não sabia se
isso era bom para ele que, lentamente envelhecia, ou era ruim. Eles ainda não
atinaram com o que acontecia. Ainda embebidos pela alegria do viver sempre na
eternidade, não vislumbravam o futuro de monotonia absoluta. Se não há
renovação não há enriquecimento de espécie alguma.
Logicamente que ele,
observando a caterva lá embaixo na rua constantemente molhada pela água meio
ácida, - já fora mais ácida, matava os despreparados – desejava ser igual. A
anormalidade traz prejuízo moral e intelectual aprisionando-o a margem da vida.
Estava cansado de ser escorraçado. Não podia nem sair para almoçar. Fizeram um
sistema de entrega no qual não precisava ir ao restaurante, ou mesmo, a
lanchonete. Tinha que ficar a mercê deles. Merda! Queria ser normal. Queria ser
igual a eles.
Porque a combinação médica prescrita não dera resultado nele? Fizera tudo,
segundo a recomendação médica e, nada resultara, a não ser, a penugem que
nascia em suas costas.
Abriu a porta do guarda-roupa onde tinha um espelho grande. Ficou nu. Reparou
que não era só nas costas que lhe nasciam penas. Elas nasciam pelo corpo todo.
Mexeu os ombros. A asa toda branca mexeu movendo o ar do quarto. Estou virando
um pássaro? Chegou ao parapeito da janela. Ficou de cócoras. Olhou para baixo.
Tudo continuava na mesmice de sempre. Bateu as asas. Sentiu o corpo se elevar.
Tomou coragem. Jogou-se no vazio. Começou a cair. Sacudiu os ombros. A asa num
sobe desce o impulsionou para cima. Estava voando. Gritou:
- Sou um pássaro.
Sou um pássaro.
E sem que ninguém
percebesse o que estava acontecendo, ele sumiu no cinza pálida do céu.
Atravessou uma grossa nuvem e deparou com um sol radiante. Gritou novamente:
- Sou um pássaro feliz.
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