Por duas horas seguidas o branco invade seus olhos castanhos claros. A mente
fervilhando de letras e palavras confusas e desconexas, não consegue imprimir
sua flexibilidade no papel branco eletrônico. A audição invadida por sonoros
palavrões como merda jogada no ventilador é expelida em várias direções. O sol
por entre as tiras amarelas das cortinas expulsa a temperatura dos corpos
sonolentos obrigados a viverem doloridas sobrevivências.
Descobre a falta de veemência nas palavras. Procura o dicionário como apoio,
mas só encontra palavras conhecidas ou, talvez uma ou outra desconhecida e,
para isso é preciso ser audacioso, ter fibra para enfrentar a gramática entre
as linhas da vida. Assim mesmo se arisca sem pejo lançando suas ideias. Aos
tropeções segue o caminho colhendo aqui e ali pequenas migalhas de
agradecimento que se incorpora ao currículo artístico criativo.
Pensou várias vezes jogar os amarelecidos papéis de cima do Viaduto do Chá
inundando o Vale do Anhangabaú de palavras tortas, frustradas e sem sentido.
Ocasiões houve em que pensou se jogar numa queda livre e despreocupada de
qualquer sentido que não fosse além da vida. Mas isso para ele era uma forma
nada adequada em acabar com o que vinha construindo. De mais a mais, era contra
os seus princípios. Poderia, e foi o que fez acabar literariamente falando, com
tudo o que preocupasse o seu fazer.
E revelou-se um covarde todas as vezes que ficou em pé na amurada do Viaduto.
Não conseguiu nem ficar três minutos olhando o lá embaixo por onde passavam veículos
despreocupados com o que acontecia em cima. Seu estômago se entortava para o
lado puxando-o a descer. Sentia a ardência subir pela garganta lançando ao chão
ladrilhado da calçada do viaduto, a massa gosmenta do seu interior.
Envergonhado, procurava sair o mais rápido possível, se esgueirando por entre
os olhos assustados dos transeuntes que não entendiam o que estava acontecendo.
Desistiu dessa prática de sadismo.
Depois de algumas tentativas, desistiu do intento, passou a considerar o chão
que pisava valioso demais para deixá-lo.
E, foi assim, que descobriu que era realmente um tremendo covarde.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2022
Pequenas histórias 216
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Vazia.
Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...
-
na minha vida perdida no dia a dia. Palavras, uma a uma, proferidas no trespassar do infinito do meu ser em busca de mim mesmo. Caio ...
-
Isso foi o que então no momento não pude entender. Foi isso sem tirar e nem por, porque as coisas são porque devem ser ou porque fazemos ...
-
Para me conhecer além de me amar, é necessário que me ame como se ama o sol ou a lua, como se ama o infinito das fibras que envolvem o cós...
Nenhum comentário:
Postar um comentário