Caminhava por ruas
Caminhava por ruas desertas. Virava esquinas vazias. Sentava em bancos frios.
Entrava em praças desoladas. Subia em prédios escuros. Os carros parados se
enferrujavam. As lojas abertas não tinham movimento nenhum. Os bares
enfileiravam garrafas sem líquidos. Nos restaurantes as comidas fritavam ao
sabor solitário do fogo apagado. O silêncio ensurdecedor imperava onde outrora
era um barulho silencioso. Não havia brisa, nem vento, imóvel as sujeiras
espetavam o asfalto e o calçamento de destroços de algo que não tinha noção do
que acontecera. Parecia que ele estava num dos romances do Rubens Paiva, ou
naqueles filmes B Hollywoodiano.
Andou de ponta a ponta da Avenida. Entrou em vários estabelecimentos. Na Casa
das Rosas pegou uns volumes do Haroldo de Campos, o qual, por mais que lesse
não entendia nada, mas como é chique ser intelectual, saiu com dois livros
grossos do Poeta Concreto. Depois entrou no Centro Cultural Itaú. Pulou a
catraca. Teve sempre vontade de fazer isso, pular catraca. Não gostou do lugar.
Tudo vazio, frio sem decoração nenhuma. Nos bares bebeu e comeu, saiu sem
pagar, não tinha ninguém para receber. No cinema Espaço Reserva, entrou com um
tremendo saco de pipoca, ligou o projetor, sentou numa das cadeiras e,
propositadamente começou a comer a pipoca jogando algumas para o alto. No
Masp, abraçou um por um dos quadros, pensou em levar um ou dois, mas como eram
muito grandes, desistiu. No Trianon urinou nos bancos sob as úmidas árvores. No
Conjunto Nacional, percorreu todas as dependências da Contax, ligou os micros.
Na Livraria Cultura, na seção de DVDs, pegou vários, principalmente os
clássicos, alguns livros, justamente aqueles que ele não poderia pagar. Entrou
no carro parado em frente ao Conjunto, saiu cantando os pneus sem se preocupar
com o quer que fosse. Como um louco correu a mais de cem. Foi e voltou, pouco
sem lixando se batia ou sofresse um acidente. Parou em frente ao Itaú. Revirou
todos os caixas, os terminais, bagunçou todos. Ao sair estava com os bolsos
cheios de dinheiro, tudo nota de cem. Nisso, parado na calçada, constatou, pela
primeira vez que estava sozinho, não havia mais ninguém. Se isso é verdadeiro,
perguntou-se:
- Para que vou querer todas essas tranqueiras se não tenho com quem partilhar?
Num desespero jogou tudo longe, uísque, comida,
roupas, dinheiro, CDs, DVDs, e gritou alucinado.
- Fiquem com tudo isso, não quero nada, fiquem
com vocês, seus famintos consumistas, não preciso nada de nada. Eu não quero
isso. O que eu quero e...
De repente ouviu uma freada. Carro! Olhou
para a direita, nada. Olhou para a esquerda, nada também. Não via carro nenhum.
No entanto o barulho aumentava, chegava perto, além da freada, ouvia vozes. Não
estava sozinho. Seu coração disparou, correu de um lado para o outro...
- Ei, acorde, chegamos, não vai descer?
- Ahn! o que? Chegamos?
Levantou rapidamente. Desceu do fretado. E com
os olhos marejados, o coração exultante, estava novamente dentro da realidade
que seria difícil deixar.
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