Silvio e Silvia 7
O amigo estava sentado ao fundo do bar, no lugar mais escuro, um canto
estratégico onde sabia que não seria importunado. Ao entrar, correu os olhos
pelo ambiente, na verdade não estava procurando ninguém, muito menos ele, no
entanto foi acusada de persegui-lo, de vigiar seus passos. Silvia não estava
mais interessada em e no que e nem por onde Silvio poderia estar. Ao distinguir
sua figura no meio das sombras perdidas, achou-se na obrigação em
cumprimentá-lo, ainda eram amigos, ou não eram? Com a atitude de Silvio perante
desconhecidos, pelo menos para ela Marcus até aquele momento era e continua
sendo um desconhecido, só foi confirmar que a amizade entre eles já não era a
mesma. Marcus estava sempre por ali, já o tinha visto perambulando a caça, como
ouvira falar. Não era uma pessoa para se confiar e nem para se desconfiar,
talvez um Zé Ninguém esperando estar no lugar certo e na hora certa. Quem sabe
pensa que com o Silvio tenha achado o seu lugar certo e a hora certa? Quem vai
saber, perguntou. O que a desgostava era ver o amigo entrar numa fria, pensava
ela, e não poder fazer nada, ou melhor, não participar, ter sido posta para
escanteio, da falta de confiança e, por que não, falta de amizade de Silvio.
Certo, disseram: nada de se apaixonarem, mas implícito ficou se um dos dois se
interessasse por alguém, pelo menos dissesse, comunicasse ao parceiro. Coisa
que Silvio não fizera. Vinha se encontrando com Marcus há um tempo, até com
certa intimidade, soubera. Não o cobrou, não era de cobrar e não gostava que
cobrassem dela. Magoada não perdoaria o amigo nem hoje, nem amanhã. Saiu do
bar, deu as costas para tudo aquilo como se nada ocorrera.
Sentiu uma tristeza pesada, uma tristeza que abrangia a noite, a cidade, o
mundo, os acontecimentos. Por outro lado, foi envolvida por uma paz refletindo
nos nervos relaxados, na apática morosidade da noite. Agora o que tinha que
fazer era juntar os pedaços, um por um, reverificar com atenção os erros,
aparar as arestas mais pontiagudas, limpar bem limpo, e depois publicar. Faria
isso mesmo. Procurou na agenda do celular a palavra Silvio. Depois em Excluir,
quando apareceu no visor a pergunta: Deseja excluir esse contato da sua lista?
Sim, digitou. Pronto. Silvio já não lhe pertencia mais, já era, ficou nas
sombras do passado.
Olhou a noite através da janela da sala. A vida continuava sua existência
apesar de tudo. Deu de ombros. Amanhã publicarei no meu blog, quem sabe surja
um olheiro e goste e queira editar, transformar em filme, curta, teatro ou
minissérie, quem sabe? É talvez, tudo pode acontecer, não é? Pensando dessa
maneira, fechou o Word, desligou o micro, apagou as luzes da sala e foi deitar
pensando num novo projeto...
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