A
música romântica de Dolores Duran, como uma câmara cinematográfica percorre os
recantos da sala na voz rouca e gostosa de Nana Caymmi. Num travelling ágil
desnuda os cantos empoeirados dos pequenos enfeites da alma ali depositados.
Desliza ao rés do chão mostrando o tapete vermelho gasto pelo tempo. Depois
sobe pelas costas da poltrona até se fixar no rosto cansado de olhos fechados.
Em seguida, como obedecendo a ordens, se afasta mostrando toda a cena em seus
detalhes.
Sentado
na poltrona, com a cabeça virada para o lado, parecendo dormir, esta um homem
de seus trintas e poucos anos, tendo numa das mãos pendida para fora do braço
da poltrona um copo pela metade de uísque e, na outra mão apoiada no outro
braço da poltrona, umas folhas datilografadas, onde se pode ler no cabeçalho: SILVIO
E SILVIA. Nisso
ao ouvir o copo batendo no chão, o homem se sobressalta, acorda. Esfrega os
olhos. Pega o copo e bebe o resto de uísque enchendo-o novamente. Com passos
trôpegos chega perto da janela. Olha para baixo. Uma queda dessa altura crê que
dá para morrer, pensa inclinando o corpo. Em seguida estica o braço e solta,
uma por uma as folhas. Lá se vai à merda empobrecida do que fui capaz de
escrever, fala mecanicamente. As folhas ao sabor do vento dançam rodopiando de
um lado para o outro, na clara manhã. Uma voz gutural vem lá de baixo. Que
porra é essa sujando meu quintal? Vê um homem gesticulando para ele. Grita
enfurecido. Cala boca, veado. O homem lá embaixo se enfurece, gesticula, berra,
mas ele não ouve, fecha a janela. Volta-se para dentro de si aconchegando-se no
ambiente conhecido dos móveis solitários. Enche o copo de uísque. Senta na
poltrona. Nota a transformação, vê que a voz rouca de Nana Caymmi fura seus
sentimentos em poças de angústias. Desliga o aparelho de som. Recai o silêncio
daquilo que não pode ou, talvez, como poderá saber daquilo que não quer fazer.
Como poderei soletrar os instantes que me farão escorrer na lentidão de
sentir-me capaz de alguma coisa. Entrega-se a opressão que o prende ao chão da
sala. Deixa-se levar colhendo aqui e ali, todo o pulsar da música em acordes
vibrando em sua carne. Deita-se no chão, pega o controle remoto, liga o som,
procura uma rádio, acha uma pulsante como seu corpo deseja penetrar nos acordes
loucos do rock. Assim, entre as duas caixas, cai num sono profundo não querendo
mais acordar.
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