Ele saiu para a luz alegre do sol brilhando a
calçada nova da avenida. Saiu da luz artificial do metrô para a luz diurna da
tarde que deslizava sorrateiramente num ir e vir de carros e pessoas. Sorriu
quando distraído quase trombou com um rapaz que em sentido contrário ficou,
como ele, dançando um na frente do outro até que um decidiu pela direita, evitando
assim maiores acontecimentos. Sorriu, só podia sorrir não gargalhar, pois
aquilo não era motivo de risada, não era uma piada, apesar de que, quem visse
daria uma boa gargalhada. Mas não era para ele, e também, não era para a outra
pessoa motivo para risadas, e, sim, para um riso de leve, um riso para dentro,
um riso, ou melhor, um sorriso imperceptível. Assim, quase invisível seus
lábios se contraíram num sorriso que só ele percebeu e guardou para si aquele
instante.
Andava decidido, com passos como se estivesse
passeando, apesar de que tinha um compromisso, tinha uma hora marcada, não
poderia atrasar. Queria antes almoçar, tomar um aperitivo, e se houvesse tempo
ler um pouco, esmiuçar a vida detalhada de uma manhã de uma senhora do século
passado, tão bem escrito, talvez o melhor livro que já lera, relera e trelera.
Ver como a Sra. Dalloway se sairia com suas preocupações nos preparativos da
festa que daria a noite. Festa! Ele nunca conseguiria preparar uma festa, se
envolver com as necessidades que acarretaria em organizar uma festa. Deveria
ser um saco, aliás, é um saco comprar isso, comprar aquilo, salgadinhos,
bebidas, cerveja, refrigerante, calcular as pessoas que veria quem não veria,
quem ele convidaria ou não convidaria, deveria ser um porre. Perder-se-ia
dentro de tantos detalhes, assim como se perdia nos recitais, principalmente no
começo, nos primeiros recitais, ficava meio que abobalhado sem saber onde
ficar, como se mexer, onde enfiar a mão, se preocupar se a voz sairia no tom
certo, agia atento para não tropeçar diante de pessoas que nunca tinha visto.
Talvez se saísse bem como anfitrião, assim como estava se saindo razoavelmente
bem nos recitais. A verdade é que nunca tentou organizar uma festa, um dia quem
sabe, organizaria uma. Mas no momento não tinha intenção.
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