Onde
você estava quando o clarão explodiu iluminando nossos olhos fechados? Onde
estava? Não te encontrei em lugar nenhum. Nossos olhos não são mais os mesmos,
eles abriram-se mesmo estando fechados. Abriram-se para a volátil luz
espargindo fios de ouro em cada horizonte enchendo de enigmas a paz reclusa em
cada ser. Caminhei ao lado e pude compor meu destino sem aflição que é
determinada nessas ocasiões. Caminhei me perguntando a cada passo que
cuidadosamente imprimia minhas marcas na areia fria da estrada, onde você
estava? Você como eu, deveria preparar o caminho para desvendar os enigmas da
pedra, os enigmas do ar, da água, do fogo e dos signos. No entanto você nem se
preparou, pouco se incomodou, deu as costas sumindo na solidão do povo, talvez
conformado com o desígnio de ser apenas um sobrevivente da angustia e da
ansiedade. Ou teve medo de enfrentar o desconhecido. No entanto, é no desconhecido
que há crescimento, principalmente o crescimento de si próprio, passando a
entender o mundo que o rodeia. Tudo leva crer que a luz não iluminou
suficientemente teus olhos fechados. Não deixou nem uma mínima chama de luz se
infiltrar por entre as pálpebras. Medo? Será? Não sei, medo todos tem, se não
enfrentarmos nossos medos, morremos desiludidos de nós mesmos. Morremos na
ignorância de não termos nascidos nos corações das pessoas. Principalmente de
quem amamos. Morri duas vezes para renascer outras duas vezes. Cultuei a Fênix
até que me tornasse parte das suas fibras e de suas asas ligeiras como flecha.
Com
a mão espalmada de dedos de certeza, contornei as linhas da flecha cravada no
peito, até que a comoção tênue de luz desfibrasse a distância entre a certeza e
a dúvida que roçava as pontas dos dedos. Fui tomado pela comoção, senti a
profundidade da existência alojada em meu corpo. E surgiu a intenção do grito,
no entanto o grito morreu no escondido da garganta. Sedento, alimentei-me de
cogumelos e plantas rastejantes. Saciado e alimentado, reiniciei a caminhada
pela estrada vazia e poeirenta. O suor dos meus passos marcava a areia no
destino ignorado. Sentindo-me pequeno na grandeza humana, descortinei a paixão
enroscada nas formas à margem da estrada. Para não me cansar, caminhei devagar,
o mais lento possível, porém, o cansaço tolhia os movimentos. Não era cansaço
físico, nem cansaço mental, era cansaço da enrijecida carne pelo temor de me
sentir cansado. Precisava de repouso. Ao longe divisei um casebre, e para lá me
dirigi. Assim pude repousar a carne ouvindo os espaços do pulsar no silêncio
das fibras que me envolviam.
Quantas
horas dormi? Não sei. Apenas Sagita me iluminava, e acompanhando sua sombra,
resoluto, reiniciei minha caminhada novamente.
Ouvia. Ouvia sim, a música diluída na distância até ao ponto que meu
ouvido conseguia alcançar. Era uma música conhecida, apesar de seu ritmo
violento, rápido, precisava apurar os ouvidos para distinguir as palavras. E o
que elas me diziam? Momentaneamente nada. E como poderia dizer alguma coisa se
nem sabia o do porque estava naquela situação. O que estava fazendo naquele
morro que ora me parecia um amplo espaço aberto, em outros momentos, dava a
sensação de estar numa gruta onde a luz difusa mal iluminava o caminho. Tentava
caminhar, tateava apalpando a parede úmida e gosmenta e fria. Minha respiração
subia, tinha a nítida noção que estava passando por aquilo para salvar a vida.
Se livrar da escravidão. Mas qual escravidão? Da vida? Da materialização da
vida e seus vícios?
Quando me senti no morro onde meus olhos cerrados pela violenta luz, o
medo me dominava, paralisavam os movimentos até que uma sensação estranha me
lançou a um combate entre a paz e a dor. Nesses momentos consegui tocar na paz
com as pontas dos dedos acreditando em vencer o que me afligia sem saber
exatamente o que. E era nesses instantes que surgia o sinal no amplo céu
iluminado pelo sol forte. Uma sombra cobria meu corpo suado e violentado pela
luta, dando-lhe uma pequena força para continuar. A princípio pensei num sinal,
depois distingui um pássaro, quando chegou mais perto foi que reconheci a águia
que adquiria forma de flecha ou seta se materializando em seu interior. Captava
essa materialização como chama queimando-me ao mesmo tempo em que a mente se
abria guiando-me paralelamente as correntezas do rio da vida.
E o poder da carne tornava-me rígido, um pouco cansado, mas não frágil,
pois sabia que meus inimigos se encontravam paralisados ignorando o rumo que
deveriam tomar. Eu tinha um rumo, talvez até soubesse qual era, mas envolvido
por uma névoa que não me deixava ver claramente, e nem podia, pois se soubesse
não haveria significado nenhum em percorrer.
A todo o momento me perguntava:
- Conseguirei completar todo o meu caminho?
Era a pergunta mais frequente em que procurava acreditar e, Ingênuo,
acreditava. Acreditava porque todo o dia abria os olhos e contemplava o azul
escuro sem estrelas do teto do quarto. Não via nisso um milagre. Não acreditava
em milagre. E porque deveria? Só porque estava no planeta Terra e o planeta
Terra entre constelações e nebulosas? Só porque os mistérios existem e precisam
ser revelados? Ou quem sabe, decifrados? Tudo isso e muito mais, disse
reconhecendo o trabalho árduo que tinha à frente.
Tinha uma arma. O grito. O grito mudo saindo da garganta ganhando a
vastidão do vazio seco como deserto. Usava o grito, nem sempre positivamente.
Isto é, o grito apesar de amplo e vasto, se convertia de positivo a negativo.
Quer dizer, era interpretado dessa maneira. Mesmo assim, não deixei de gritar
toda vez que achava que deveria. Reconhecia. O grito saia às vezes, fraco,
seco, sem eco, outras vezes, sonoro não alcançava o objetivo. Por isso, do meu
canto fitava o vazio das pessoas estudando cada gesto, cada movimento, cada
frase, para depois codificar em meu intimo o significado. Nem sempre
justificável. Por isso, agia incrédulo diante da face egocêntrica povoando meu
caminho. Desviava dessas faces como desviava da futilidade onde, no livre
arbítrio, cada um achava seu canto mórfico e ali me aquietava.
Não podia me aquietar tinha uma missão a cumprir. Seguir a flecha
lançada no espaço da existência em que pisava com cuidado. A flecha seguia seu
curso predestinado, e seguindo-a corria perigo, durante o caminho me desvirtuar
e cair no anonimato de um sentir fútil, levando-me a despencar no abismo de
sentir eu mesmo queimando no fogo das palavras.
Ah! Sorrio intimamente, conseguirei, sim, disse para si mesmo.
Sim conseguirei, disse a si mim mesmo, não me preocupo com o significado
da palavra, sei que conseguirei, e, no entanto, surge, enovelando tudo com a
fragrância do desprezo, a indolência dos mortos vivos, como sentimento de
tristeza ao estampar a negatividade. Não sabia trabalhar os sentimentos,
desconhecia o processo, não me ensinaram a burilar o negativismo, não me
ensinaram nada, muito menos viver e, viver era difícil!
Lábios finos, devastador, sensual, nunca apresentou uma pequena fresta
de alegria, meus lábios não se abriam para um largo e franco sorriso. Quando me
perguntavam por que não sorria, a resposta era:
- Cristo nunca sorriu, porque devo sorrir.
As pessoas não me diziam nada, uma ou outra fazia menção, pois o gesto
estacionava no ar das rugas. Eu percebia e me calava.
A chuva caia torrencialmente. Se não fosse a chuva já teria deixado o
Solar dourado. Não poderia esperar muito. Depois da flecha lançada não tinha como
voltar atrás. Obrigado estava a seguir o curso do destino. A seguir o rastro da
flecha.
Tendo conhecimento de Sagitta. Sabendo da sua existência, não conhecia
sua importância no universo sonoro e no sistema cósmico. Podia prever o que me
representava. Havia uma pequena, talvez noção do que me representaria, ser não
místico, que vivia apenas para preencher o dia-a-dia da minha existência.
Portanto, quando fui apresentado a Sagitta, previ um estremecimento
interno de que em Sagitta estaria a luz que tanto vinha procurando. Tomei ao pé
da letra tal apresentação, no entanto, dias depois, notei que precisaria
percorrer um caminho sombrio, com pouca luz. Procurei conhecimentos maiores
sobre o assunto, indaguei aqui e ali, consultei os caminhos informáticos, os
caminhos das constelações, do universo, das estrelas, da lua, do cosmo e, não
encontrei nada, quer dizer, o que encontrei nada me dizia da grandeza de
Sagitta. As informações não levavam a lugar nenhum.
Assim sendo, me acomodei no canto da alma me aquecendo no conhecimento
até então, adquirido.
E ao me acomodar no canto da alma, não só me aqueceu como o conhecimento
adquirido, tomou outra consistência não prevista e, me senti pronto a enfrentar
a raposa, mesmo não sendo lutador, senti a necessidade em enfrentar tal perigo.
A águia num voo rasante arrancou-me do pescoço a corrente com o pingente em
forma de S. Desesperado, sem pensar, retesei o arco e lancei a flecha atingindo
em pleno voo a águia. Nisso, surge do nada a raposa faminta. Não demonstrou
medo, sabia, a raposa tinha fome de carne animal e, não, de carne humana. Sabia,
ela estava ali para afrontar-me num duelo, não um duelo de vida e morte, mas
num duelo de rapidez, de agilidade.
Assim, ao notar a presença do animal, sem pensar, sai correndo, impondo
velocidade aos pés. Lado a lado estava na trilha do destino. Algo me dizia ser
vencedor antes mesmo de chegar ao local onde estava o corpo da águia.
Confiante, conhecendo meu potencial assim como o potencial da raposa. Mesmo que
ela estivesse alguns segundos a minha frente, vi que não havia necessidade de
impor mais velocidade. Foi então que tive conhecimento de algo que já sabia e,
que naquele momento, devido à preocupação em vencer a raposa, tornava-me
obscurecido. A flecha por mim lançada situava-se entre as constelações de
Hércules e Delfin, seguida da águia e raposa.
Compreendi nada me venceria, só não podia fazer corpo mole, tinha que
demonstrar competência para lutar, competência de ser vencedor e, assim fiz,
competi com a raposa. Até o último instante, sempre com a raposa a minha
frente. Na volta final, imprimi aos pés a força da seta, recuperando com
galhardia a corrente com pingente em forma de S. Suspirando com alegria, gritei
venturoso:
- Sagitta você não morrerá nunca. A prova esta aqui na minha mão. Tua
força emanará melodiosos acordes elevando-nos ao total conhecimento cósmico.
Ajoelhei no chão áspero e alcei o pensamento à constelação visível em meu
peito. E adormeci sossegado.
Sossegado adormeci. E sonhei. Sonhei calmo, suave, terno, perigoso,
angustiado. Flanava no meio da constelação, esbarrava nas estrelas, empurrava
uma para lá, outra para cá. O silencio aterrador comandava meus gestos. Tinha
conseguido. Quando menos esperava conseguira. Era sempre assim. Conseguira.
Sim, estava fazendo minha primeira viagem astral. Ou não estava? E o que era
aquilo? Sonho? Muito real. De onde estava via meu corpo estendido na cama do
quarto. Não só o meu corpo como tudo o que queria ver. Poderia ver minha vida,
desde ao nascer até agora. Ver todos os instantes da minha vida, meus erros, meus
pecados, tudo. Sim, poderia. Mas, não era isso o que queria. Ainda não estava à
beira da morte. E para que relembrar o que já foi? Queria apenas flanar por
entre as tênues nuvens dos amigos, amantes, parentes, e se pudesse, dizer-lhes:
- Olhe! Sei que não fui o que vocês imaginavam, sei, muitas coisas
erradas fiz, mas fiz com a intenção de conseguir a felicidade e, alcançando a
felicidade conseguiria fazer vocês felizes. Se não consegui, me perdoem.
Era o que queria dizer. No entanto minha voz soava muda, não alcançava o
destino, não propagava no espaço. Gritava:
- Amo todos vocês.
Ninguém ouvia meu grito. Se ouvissem não tinha como saber, portanto se
angustiava. Nisso percebi algo esquisito. Percebi, não tinha como sentir, era
apenas um tênue flamejar de vida. Ouvi no silêncio do ouvido um passar
relâmpago incandescente. Olhei em volta e nada vi. Soou ao longe um tropel de
passos em desabalada corrida. De repente estava rodeado de ciclopes que corriam
apavorados. Por que corriam? Com medo do que? Não teve tempo em assimilar a
resposta. Passou por mim uma enorme flecha em fogo que atingiu um ciclope perto
dele. O coitado caiu inerte no chão.
Nesse momento percebi, eu era um ciclope, tinha que correr.
Vi a flecha flamejante lançada por Apolo em minha direção. Imprimiu
velocidade aos pés. Dava a impressão de estarem amarrados a uma bola de chumbo.
Tinha dificuldade em erguer os pés. Com dificuldade, numa lentidão horrorosa
fazia o máximo para fugir. Se ao menos alcançasse a esquina...
Nisso a flecha perfurou a carne. Uma queimação tomou conta de todo o
corpo. Numa lentidão a carne foi estraçalhada atingindo os ossos. Parecia uma
guitarra sendo solada num extremo infinito. Cai. Melhor. Aos pedaços meu corpo
despencou em direção a mim que estava dormindo. Preocupou-me com o baque e como
conseguiria juntar os pedaços dilacerados pela flecha. Meus olhos úmidos de
terror pressentiam o momento exato do encontro de mim com mim mesmo. O
momento...
Acordei sobressaltado. Empapado de suor, sentei na cama. Procurei no
escuro distinguir onde estava. Acendi a luz. Respirei com folga. Sonhara. Fora
um sonho tão real a ponto de sentir dores pelo corpo todo. Compreendi.
Minha busca chegava ao término. Compreendi claramente. Sagitta estava em
mim assim como eu estava em Sagitta.
Isto é, meu destino era não poder nunca se livrar de Sagitta. Estava
preso assim como estava preso ao destino infinito das sensações.
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