Na tarde amena o vento leve trazia com ele o
anoitecer. Com suaves movimentos amenizava os raios de sol que procurava furar
a densa mata por entre folhas e galhos que ladeavam as margens do rio. Onde
eles estavam, devido a curva do leito, a água era rasa formando uma pequena
praia que o pessoal denominava de prainha. A mata desse lado direito não era
muito densa como do outro lado, a margem esquerda. Deitados na areia os dois
amigos saboreavam a quietude do momento levemente quebrada pelo deslizar da
água. Nisso, Rildo levantou-se, despiu a bermuda e entrou na água incentivando
o amigo a segui-lo. Odilon não se fez de rogado, despiu também a bermuda
seguindo o amigo.
Enquanto Odilon fazia exercício de rotina como
ele dizia, Rildo, na parte onde a água batia nos joelhos, se espreguiçou
deitando-se com a barriga para cima saboreando as pequenas ondas em sua pele
branca de cidadão burguês. Gostava de olhar as folhas formando, juntamente com
os galhos, as mais diversas formas abstratas que deixava-o cada vez mais
encantado com a natureza. Pensou em compartilhar com o amigo, perguntar-lhe o
que achava de tudo aquilo, no entanto desistiu, Odilon não possuía a
sensibilidade poética para entender a poesia do momento. O amigo era mais pé no
chão, não se interessava por nada a não ser o instante numa praticidade que as
vezes irritava Rildo.
Nisso sentiu a cabeça de Odilon em seu peito.
Uma coisa que ele, Rildo tinha de diferente do amigo era a timidez não sabia demonstrar
os sentimentos. Odilon não se preocupava com nada, se tinha que fazer alguma
coisa fazia sem timidez ou com timidez. Assim, ficaram os dois por um bom
tempo.
Uma sonolência invadia os olhos de Rildo
embaçando as figuras abstratas e, ao mesmo tempo parecia ver um homem na margem.
Tentou falar com Odilon e não conseguiu pronunciar nenhuma palavra. Ergueu o
corpo empurrando a cabeça do amigo. Desprevenido, Odilon se voltou na tentativa
de revidar, mas ao ver o amigo estático, com os olhos vidrados na margem,
recuou para a parte mais funda do rio. No semblante de Rildo, estava estampado o
medo ao ver o homem olhando para eles. O que lhe dava medo não era a figura em
si, homem forte, grande, ombros largos, fisionomia fechada, barbudo, olhos
profundos, cabelos desgrenhados, mas o que ele trazia a mão, uma espingarda na
esquerda e na direita várias cabeças que para Rildo deviam ser humanas. Sem conseguir
tirar os olhos, viu o sujeito depositar no chão da prainha o rifle e as cabeças
e lentamente começou a se despir até ficar completamente nu. Não tinha a
aparência de que fosse da cidade, parecia pessoa do campo para ter uma
compleição física descomunal como ele tinha. E como lentamente se despiu,
lentamente se dirigiu para dentro da água. Rildo petrificado, não conseguia se
mexer, sentiu-se perdido, era apenas um adolescente, magro e frágil. O
desconhecido ao chegar bem perto dele, se ajoelhou, olhou bem fundo nos seus
olhos e com as grossas mãos pegou o seu rosto, puxou para sim e beijou-o
longamente. Rildo tremia e sem perceber retribui o beijo do desconhecido. De
repente num safanão foi empurrado para traz. Perdeu o folego, puxou com força o
ar que o sufocava a ponto de tossir violentamente. Quando a sufocação passou,
jogando um pouco de água no rosto, notou que o desconhecido tinha desaparecido.
Tudo voltou ao que era. Odilon continuava deitado na areia estava ainda de
bermuda, nem parecia que entrara na água, completamente seco. Rildo não
entendia o que acontecera.
- O que foi?
Perguntou Odilon olhando para ele.
- Está me molhando.
Rildo tentou lhe dizer o que acontecera, não
conseguiu, tremia, sentiu os dentes baterem um no outro.
- Está com frio?
- Sim, estou.
- Então vamos embora.
- Vamos que está anoitecendo.
Depois de pegarem as coisas, antes de saírem
da prainha, Rildo olhou para traz. Imaginou ter visto dois olhos entre as
árvores. Girou o corpo e saiu apressado no encalço do amigo.
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