domingo, 14 de janeiro de 2024

Na curva do rio


Na tarde amena o vento leve trazia com ele o anoitecer. Com suaves movimentos amenizava os raios de sol que procurava furar a densa mata por entre folhas e galhos que ladeavam as margens do rio. Onde eles estavam, devido a curva do leito, a água era rasa formando uma pequena praia que o pessoal denominava de prainha. A mata desse lado direito não era muito densa como do outro lado, a margem esquerda. Deitados na areia os dois amigos saboreavam a quietude do momento levemente quebrada pelo deslizar da água. Nisso, Rildo levantou-se, despiu a bermuda e entrou na água incentivando o amigo a segui-lo. Odilon não se fez de rogado, despiu também a bermuda seguindo o amigo. 

Enquanto Odilon fazia exercício de rotina como ele dizia, Rildo, na parte onde a água batia nos joelhos, se espreguiçou deitando-se com a barriga para cima saboreando as pequenas ondas em sua pele branca de cidadão burguês. Gostava de olhar as folhas formando, juntamente com os galhos, as mais diversas formas abstratas que deixava-o cada vez mais encantado com a natureza. Pensou em compartilhar com o amigo, perguntar-lhe o que achava de tudo aquilo, no entanto desistiu, Odilon não possuía a sensibilidade poética para entender a poesia do momento. O amigo era mais pé no chão, não se interessava por nada a não ser o instante numa praticidade que as vezes irritava Rildo.

Nisso sentiu a cabeça de Odilon em seu peito. Uma coisa que ele, Rildo tinha de diferente do amigo era a timidez não sabia demonstrar os sentimentos. Odilon não se preocupava com nada, se tinha que fazer alguma coisa fazia sem timidez ou com timidez. Assim, ficaram os dois por um bom tempo.

Uma sonolência invadia os olhos de Rildo embaçando as figuras abstratas e, ao mesmo tempo parecia ver um homem na margem. Tentou falar com Odilon e não conseguiu pronunciar nenhuma palavra. Ergueu o corpo empurrando a cabeça do amigo. Desprevenido, Odilon se voltou na tentativa de revidar, mas ao ver o amigo estático, com os olhos vidrados na margem, recuou para a parte mais funda do rio. No semblante de Rildo, estava estampado o medo ao ver o homem olhando para eles. O que lhe dava medo não era a figura em si, homem forte, grande, ombros largos, fisionomia fechada, barbudo, olhos profundos, cabelos desgrenhados, mas o que ele trazia a mão, uma espingarda na esquerda e na direita várias cabeças que para Rildo deviam ser humanas. Sem conseguir tirar os olhos, viu o sujeito depositar no chão da prainha o rifle e as cabeças e lentamente começou a se despir até ficar completamente nu. Não tinha a aparência de que fosse da cidade, parecia pessoa do campo para ter uma compleição física descomunal como ele tinha. E como lentamente se despiu, lentamente se dirigiu para dentro da água. Rildo petrificado, não conseguia se mexer, sentiu-se perdido, era apenas um adolescente, magro e frágil. O desconhecido ao chegar bem perto dele, se ajoelhou, olhou bem fundo nos seus olhos e com as grossas mãos pegou o seu rosto, puxou para sim e beijou-o longamente. Rildo tremia e sem perceber retribui o beijo do desconhecido. De repente num safanão foi empurrado para traz. Perdeu o folego, puxou com força o ar que o sufocava a ponto de tossir violentamente. Quando a sufocação passou, jogando um pouco de água no rosto, notou que o desconhecido tinha desaparecido. Tudo voltou ao que era. Odilon continuava deitado na areia estava ainda de bermuda, nem parecia que entrara na água, completamente seco. Rildo não entendia o que acontecera.

- O que foi?

Perguntou Odilon olhando para ele.

- Está me molhando.

Rildo tentou lhe dizer o que acontecera, não conseguiu, tremia, sentiu os dentes baterem um no outro.

- Está com frio?

- Sim, estou.

- Então vamos embora.

- Vamos que está anoitecendo.

Depois de pegarem as coisas, antes de saírem da prainha, Rildo olhou para traz. Imaginou ter visto dois olhos entre as árvores. Girou o corpo e saiu apressado no encalço do amigo.

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